quinta-feira, 18 de abril de 2019

O Mundo Microbiano e Você Capítulo 1


Microbiologia - 12ª Ed. 2016


Tortora,Gerard J.; Funke,Berdell R.; Case,Christine L. - Artmed


Os micróbios em nossas vidas

Para muitas pessoas, as palavras germe e micbio representam um grupo de criaturas minúsculas que o se encaixam mui- to bem nas categorias de uma pergunta antiga: É um animal, vegetal ou mineral?. Os micróbios, também chamados de mi- crorganismos, são seres vivos minúsculos que são, em geral, individualmente  muito  pequenos para serem visualizados a olho nu. O grupo inclui bactérias, fungos (leveduras e bolores), protozoários e algas microscópicas. Também inclui os rus, entidades acelulares muitas vezes consideradas como o limite entre o vivo e o não vivo (Capítulos 11, 12 e 13, respectivamente).
A nossa tendência é associar esses pequenos organismos apenas a infeões incômodas, a transtornos comuns, como ali- mentos deteriorados, ou a outras doenças mais severas, como a Aids. No entanto, a maioria dos microrganismos, na verdade, auxilia na manutenção do equilíbrio da vida no nosso meio ambiente. Microrganismos marinhos e de água doce constituem a base da cadeia alimentar em oceanos, lagos e rios. Os micróbios do solo auxiliam na degradação de resíduos e na incorporação do gás nitrogênio do ar em compostos orgânicos, reciclando, assim, elementos químicos do solo, água, organismos vivos e ar. Certos micróbios têm um papel fundamental na fotossíntese, pro- cesso gerador de oxigênio e alimento que é crucial para a vida na Terra. Os seres humanos e muitos outros animais dependem dos micróbios em seus intestinos para a digestão e a ntese de algumas vitaminas que seus corpos requerem, incluindo algumas vitaminas do complexo B, para o metabolismo, e a vitamina K, para a coagulação do sangue.
Os microrganismos também possuem muitas aplicações comerciais. o utilizados na ntese de produtos  químicos, como vitaminas, ácidos orgânicos, enzimas, alcoóis e muitos fármacos. Por exemplo, os micróbios são utilizados na produção de acetona e butanol, e as vitaminas B2 (riboflavina) e B12 (co-balamina) são produzidas bioquimicamente. Os processos pelos quais os micróbios produzem acetona e butanol foram descobertos, em 1914, por Chaim Weizmann, químico nascido na Rússia, trabalhando na Inglaterra. Quando a Primeira Guerra Mundial iniciou, em agosto daquele ano, a produção de aceto- na foi muito importante para a fabricação de cordite (tipo de pólvora sem fumaça utilizada em munições). A descoberta de Weizmann teve um papel significativo no resultado da guerra.
A indústria  alimentícia tambéutiliza micróbios na produção, por exemplo, de vinagre, chucrute, picles, molho de soja, queijo, iogurte, pão e bebidas alcoólicas. Além disso, as enzimas dos micróbios podem agora ser manipuladade forma que esses microrganismos  produzam  substâncias que normalmente  o sintetizam, incluindo celulose, substâncias que auxiliam a digestão e outras que favorecem a limpeza de drenos, além de produtos terapêuticos importantes, como a insulina. As enzimas microbianas podem inclusive ter auxiliadna produção do seu jeans favorito (consultar o quadro Aplicações da microbiologia).
Apesar de apenas uma minoria dos microrganismos ser patogênica (causadora de doenças), o conhecimento prático sobre os micróbios é necessário para a medicina e as ciências relacionadas à saúde. Por exemplo, os funcionários de hospitais de- vem ser capazes de proteger os pacientes de micróbios comuns, que normalmente são inofensivos, mas podem ser nocivos para pessoas doentes e debilitadas.
Hoje, sabemos que os microrganismos são encontrados em quase todos os lugares. A pouco tempo atrás, antes da invenção do microscópio, os micróbios eram desconhecidos para os cientistas. Milhares de pessoas morreram em epidemias de- vastadoras, das quais as causas e os mecanismos de transmissão não eram compreendidos. Famílias inteiras morreram porque as vacinas e os antibióticos não estavam disponíveis para combater as infeões.
Podemos ter uma ideia de como nossos conceitos atuais sobre microbiologia se desenvolveram observando alguns dos marcos históricos da microbiologia que modificaram as nossas vidas. Primeiro, contudo, observaremos os principais grupos microbianos e como os microrganismos são nomeados e classificados.
Nomenclatura

O sistema de nomenclatura (nomeação) para organismos em uso atualmente foi estabelecido, em 1735, por Carolus Linnaeus. Os nomes cienficos são latinizados, uma vez que o latim era a ngua tradicionalmente utilizada pelos estudantes. A nomenclatura cienfica designa para cada organismo dois nomes o gênero é o primeiro nome, sendo sempre iniciado com letra maiúscula; o segundo nome é o epíteto específico (nome das escies), escrito sempre em letra minúscula. O organismo é designado pelos dois nomes, o gênero e o eteto espefico, e ambos são escritos em itálico ou sublinhados. Por convenção, após um nome cienfico ter sido mencionado uma vez, ele pode ser abre- viado com a inicial do gênero seguida pelo eteto espefico.


Os jeans de azul Denim têm sido muito populares desde que Levi Strauss e Jacob Davis os produziram pela primeira vez para mineradores de ouro da Califórnia, em 1873. Atualmente, as empresas que fabricam o jeans azul estão recorrendo à microbiologia para o desenvolvimento de todos de produção ambientalmente sustentáveis que minimizem resíduos tóxicos e os custos a eles associados.
Jeans macio e desbotado
Um denim mais macio e desbotado é produ- zido com o auxílio de enzimas, denominadas celulases, oriundas de fungos Trichoderma. Elas digerem uma parte da celulose presente no algodão. Ao contrário de muitas reações quí- micas, as enzimas, em geral, atuam em tempe- raturas e pHs seguros. Além disso, as enzimas são proteínas e, portanto, facilmente degrada- das para a remoção do esgoto industrial.
Tecido 
A produção de algodão requer grandes extensões de terra e enormes quantidades de pesticidas e fertilizantes, e o rendimento da colheita depende do clima. Contudo, as bactérias podem produzir algodão e poliéster com menos impacto ambiental. A bactéria Gluconacetobacter xylinus produz celulose ligando unidades de glicose em cadeias simples na membrana externa da parede celular bacteriana. As microfibrilas de celulose são  expulsas através de poros na membrana externa, e feixes de microfibrilas se entrelaçam, formando tiras.o hábitat de uma espécie. Por exemplo, considere Staphylococcus aureus, bactéria comumente encontrada na pele humana. Staphylo- descreve o arranjo em cacho das células desta bactéria; -coccus indica que as células têm a forma semelhante a esferas. O epíteto específico, aureus, significa ouro, em latim, a cor de muitas colônias dessa bactéria. O gênero da bactéria Escherichia coli recebeu este nome em homenagem ao cientista Theodor Escherich, ao passo que seu epíteto específico, coli, está relacionado ao fato de E. coli habitar o colo, ou o intestino grosso. A Tabela 1.1 contém mais exemplos. 
Branqueamento 
O peróxido é um agente branqueador mais seguro que o cloro e pode ser facilmente removido do tecido e do esgoto industrial por enzimas. Os pesquisadores da Novo Nordisk Biotech clonaram um gene de peroxidase de cogumelo em leveduras e cresceram as leveduras em condições de máquina de lavar. As leveduras que sobreviveram foram selecionadas como produtoras de peroxidase. 
Índigo 
A síntese química de índigo requer pH elevado e produz resíduos que explodem em contato com o ar. Contudo, uma companhia de biotecnologia da Califórnia, a Genencor, desenvolveu um método para produzir índigo utilizando bactérias. Os pesquisadores identificaram o gene de uma bactéria do solo, Pseudomonas putida, que converte o subproduto bacteriano indol em índigo. Esse gene foi inserido na bactéria Escherichia coli, que, por sua vez, se tornou azul. 
Bioplástico 
Os microrganismos podem até mesmo produzir zíperes plásticos e materiais de embalagem para os jeans. Cerca de 25 bactérias produzem grânulos de inclusão de poli-hidroxialcanoato .

o hábitat de uma espécie. Por exemplo, considere Staphylococcus aureus, bactéria comumente encontrada na pele humana. Staphylo- descreve o arranjo em cacho das células desta bactéria; -coccus indica que as células têm a forma semelhante a esferas. O epíteto específico, aureus, significa ouro, em latim, a cor de muitas colônias dessa bactéria. O gênero da bactéria Escherichia coli recebeu este nome em homenagem ao cientista Theodor Escherich, ao passo que seu epíteto específico, coli, está relacionado ao fato de E. coli habitar o colo, ou o intestino grosso. A Tabela 1.1 contém mais exemplos.

Tipos de microrganismos


Aqui é possível observar uma visão geral dos principais tipos de microrganismos. (A classificação e a identificação dos microrganismos são discutidas no Capítulo 10.)


Bactérias
 Bactérias são organismos relativamente simples e de uma única célula (unicelulares). Devido ao fato de seu material genético não ser envolto por uma membrana nuclear especial, as células bacterianas são chamadas de procariotos, de palavras gregas que significam pré-núcleo. Os procariotos incluem as bactérias e as arqueias.
As células bacterianas apresentam uma entre várias formas possíveis. Bacilos (semelhantes a bastões), ilustrados na Figura 1.1a, cocos (esféricos ou ovoides) e espirais (espiralados ou curvados) estão entre as formas mais comuns, porém algumas bactérias possuem forma de estrela ou quadrado (ver Figuras 4.1 a 4.5, pp. 74-75). As bactérias individuais podem formar pares, cadeias, grupos ou outros agrupamentos; essas formações geralmente são características de um gênero particular ou de uma espécie de bactéria.
Arqueias 
Como as bactérias, as arqueias consistem em células procarióticas, porém, quando apresentam paredes celulares, elas carecem de peptideoglicano. As arqueias são encontradas, muitas vezes, em ambientes extremos e se dividem em três grupos principais. As metanogênicas produzem metano como produto residual da respiração. As halófilas extremas (halo, sal; fila, gosta) vivem em ambientes extremamente salgados, como o Grande Lago Salgado e o Mar Morto. As termófilas extremas (term, calor) vivem em águas quentes sulfurosas, como nas fontes termais do Yellowstone National Park. Não são conhecidas arqueias que causem doenças em seres humanos.
Fungos 
Os fungos são eucariotos, organismos cujas células possuem um núcleo distinto contendo o material genético celular (DNA), circundado por um envelope especial, denominado membrana nuclear. Os organismos do Reino Fungi podem ser unicelulares ou multicelulares (ver Capítulo 12, p. 320). Grandes fungos multicelulares, como os cogumelos, podem assemelhar-se a plantas, mas diferentemente da maioria destas últimas, os fungos não conseguem realizar fotossíntese. Fungos verdadeiros têm paredes celulares compostas principalmente de uma substância denominada quitina. A forma unicelular dos fungos, as leveduras, são microrganismos ovais maiores do que as bactérias. Os fungos mais comuns são os bolores (Figura 1.1b). Os bolores formam massas visíveis, denominadas micélios, compostas de longos filamentos (hifas) que se ramificam e se entrelaçam. Os crescimentos cotonosos (semelhantes ao algodão), que algumas vezes são vistos sobre o pão e as frutas, são micélios de fungos. Os fungos podem se reproduzir sexuada e assexuadamente. Eles obtêm nutrientes através da absorção de soluções de materiais orgânicos do ambiente – seja do solo, da água do mar, da água doce ou de um hospedeiro animal ou vegetal. Organismos chamados de micetozoários possuem características de fungos e amebas (ver Capítulo 12).
Protozoários 
Os protozoários são micróbios unicelulares eucarióticos (ver Capítulo 12, p. 337). Os protozoários se movimentam através de pseudópodes, flagelos ou cílios. As amebas (Figura 1.1c) movem- -se através de extensões de seu citoplasma, chamadas de pseudópodes (pés falsos). Outros protozoários possuem longos flagelos ou numerosos apêndices curtos para a locomoção, chamados de cílios. Os protozoários apresentam uma variedade de formas e vivem como entidades de vida livre ou como parasitos (organismos que retiram os seus nutrientes de hospedeiros vivos), absorvendo ou ingerindo compostos orgânicos do ambiente. Alguns protozoários, como a Euglena, são fotossintéticos. Utilizam a luz como fonte de energia e dióxido de carbono como a principal fonte de carbono para a produção de açúcares. Os protozoários podem se reproduzir sexuada ou assexuadamente.



Algas
As algas são eucariotos fotossintéticos que apresentam uma ampla variedade de formas e ambas as formas reprodutivas, sexuada e assexuada (Figura 1.1d). As algas de interesse para os microbiologistas, em geral, são unicelulares (ver Capítulo 12, p. 332). As paredes celulares de muitas algas são compostas de um carboidrato chamado de celulose. As algas são abundantes em água doce e em água salgada, no solo e em associação com plantas. Como fotossintetizadoras, as algas necessitam de luz, água e dióxido de carbono para a produção de alimento e para seu crescimento, mas geralmente não requerem compostos orgânicos do ambiente. Como resultado da fotossíntese, as algas produzem oxigênio e carboidratos, que são, então, utilizados por outros organismos, incluindo os animais. Dessa forma, possuem um papel importante no equilíbrio da natureza.
Vírus
 Os vírus (Figura 1.1e) são muito diferentes dos outros grupos microbianos mencionados aqui. São tão pequenos que a maioria só pode ser vista com o auxílio de um microscópio eletrônico, sendo também acelulares (não são células). A partícula viral é muito simples estruturalmente, contendo um núcleo formado somente por um tipo de ácido nucleico, DNA ou RNA. Esse núcleo é circundado por uma camada proteica, que é, muitas vezes, envolta por uma membrana lipídica, chamada de envelope. Todas as células vivas têm RNA e DNA, podem conduzir reações químicas e se reproduzir como unidades autossuficientes. Os vírus só podem se reproduzir usando a maquinaria celular de outros organismos. Assim, por um lado, os vírus são considerados como organismos vivos apenas quando se multiplicam no interior das células hospedeiras que infectam. Nesse sentido, os vírus são parasitos de outras formas de vida. Por outro lado, os vírus não são considerados organismos vivos, uma vez que são inertes fora de seus hospedeiros vivos. (Os vírus serão discutidos em detalhes no Capítulo 13.)
Parasitos multicelulares de animais 
Embora os parasitos multicelulares de animais não sejam exclusivamente microrganismos, eles têm importância médica e, portanto, serão discutidos neste texto. Os parasitos animais são eucariotos. Os dois principais grupos de vermes parasitos são os vermes chatos e os vermes redondos, coletivamente chamados de helmintos (ver Capítulo 12, p. 343). Durante alguns estágios do ciclo de vida, os helmintos têm tamanho microscópico. A identificação laboratorial desses organismos inclui muitas das mesmas técnicas utilizadas para a identificação dos micróbios.
Classificação dos microrganismos 
Antes que a existência dos micróbios fosse conhecida, todos os organismos eram agrupados no reino animal ou no reino vegetal. Quando organismos microscópicos com características de animais e vegetais foram descobertos, no final do século XVII, um novo sistema de classificação se tornou necessário. Ainda assim, os biólogos não conseguiram chegar a um consenso com relação aos critérios de classificação desses novos organismos até o final de 1970. Em 1978, Carl Woese desenvolveu um sistema de classificação com base na organização celular dos organismos. Todos os organismos foram agrupados em três domínios:
1. Bacteria (as paredes celulares contêm um complexo carboidrato-proteína chamado de peptideoglicano).
2. Archaea (as paredes celulares, se presentes, não possuem peptideoglicano).
3. Eukarya, que inclui os seguintes grupos:
Protistas (micetozoários, protozoários e algas);
Fungos (leveduras unicelulares, bolores multicelulares e cogumelos);
Plantas (musgos, samambaias, coníferas e plantas com flores);
Animais (esponjas, vermes, insetos e vertebrados). A classificação será discutida em mais detalhes nos Capítulos 10 a 12.

Uma breve história da microbiologia

Os ancestrais bacterianos foram as primeiras células vivas a aparecerem na Terra. Durante muito tempo na história humana, as pessoas sabiam pouco sobre as reais causas, mecanismo de transmissão e tratamento efetivo das doenças. Examinaremos agora alguns conhecimentos da microbiologia que impulsionaram o progresso desse campo para o estágio altamente tecnológico atual.
As primeiras observações Em 1665, após observar uma fina fatia de cortiça em um microscópio rudimentar, o inglês Robert Hooke declarou que as menores unidades estruturais da vida eram “pequenas caixas” ou “células”. Posteriormente, utilizando seu microscópio aprimorado, Hooke observou células individuais. A descoberta de Hooke marcou o início da teoria celular – a teoria de que todas as coisas vivas são compostas por células.
Embora o microscópio de Hooke fosse capaz de mostrar células grandes, não tinha resolução suficiente que lhe permitisse ver claramente os micróbios. O comerciante holandês e cientista amador Anton van Leeuwenhoek foi provavelmente o primeiro a observar microrganismos vivos através das lentes de aumento dos mais de 400 microscópios que ele construiu. Entre 1673 e 1723, ele escreveu sobre os “animáculos” que visualizou através de seus microscópios simples de lente única. Van Leeuwenhoek realizou ilustrações detalhadas dos organismos que encontrou na água da chuva, nas fezes e em material de raspado de dentes. Esses desenhos foram identificados como representações de bactérias e protozoários (Figura 1.2).
O debate sobre a geração espontânea 
Após van Leeuwenhoek descobrir o mundo anteriormente “invisível” dos microrganismos, a comunidade científica interessou-se nas origens desses minúsculos seres vivos. Até a segunda metade do século XIX, muitos cientistas e filósofos acreditavam que algumas formas de vida poderiam surgir espontaneamente da matéria morta; eles chamaram esse processo hipotético de geração espontânea. Não mais do que 100 anos atrás, as pessoas comumente acreditavam que sapos, cobras e ratos poderiam se originar do solo úmido; que as moscas poderiam surgir a partir de estrume; e que as larvas (que hoje sabemos que são larvas de moscas) poderiam se originar de cadáveres em decomposição.
O médico Francesco Redi iniciou, em 1668, os trabalhos para demonstrar que as larvas não eram geradas espontaneamente. Redi encheu duas jarras com carne em decomposição. A primeira foi deixada aberta, permitindo que as moscas postassem ovos na carne, que, posteriormente, se desenvolveram em larvas. A segunda jarra foi selada e, assim, como as moscas não conseguiram atingir o interior do frasco, nenhuma larva apareceu. Ainda assim, os antagonistas de Redi não se convenceram; eles argumentavam que o ar fresco era necessário para ocorrer a geração espontânea. Então, Redi realizou um segundo experimento, no qual uma jarra foi coberta com uma fina rede, em vez de ser lacrada. Nenhuma larva apareceu na jarra coberta com a rede, embora o ar estivesse presente.
Os resultados de Redi representaram um forte golpe no antigo conceito de que as formas grandes de vida poderiam surgir de formas não vivas. Contudo, muitos cientistas ainda acreditavam que organismos pequenos, como os “animáculos” de van Leeuwenhoek, eram simples o bastante para serem gerados a partir de materiais não vivos.
A questão da geração espontânea dos microrganismos se reforçou em 1745, quando John Needham descobriu que mesmo após ter aquecido o caldo de galinha e o caldo de milho antes de armazená-los em frascos cobertos, as soluções resfriadas em pouco tempo ficaram repletas de microrganismos. Needham considerou que os micróbios desenvolviam-se espontaneamente a partir de caldos. Vinte anos depois, Lazzaro Spallanzani sugeriu que os microrganismos do ar provavelmente entraram nas soluções de Needham após estas serem fervidas. Spallanzani demonstrou que os caldos nutrientes aquecidos após serem lacrados em um frasco não apresentavam desenvolvimento microbiano. Needham respondeu alegando que a “força vital” necessária para a geração espontânea tinha sido destruída pelo calor e foi mantida fora dos frascos pelos lacres.
As observações de Spallanzani foram criticadas com o argumento de que não existia oxigênio suficiente nos frascos lacrados para o desenvolvimento da vida microbiana.


A teoria da biogênese 
Em 1858, Rudolf Virchow desafiou a questão da geração espontânea com o conceito de biogênese, hipotetizando que células vivas surgiam apenas de células vivas preexistentes. Como ele não podia oferecer nenhuma prova científica, os argumentos sobre a geração espontânea continuaram até 1861, quando a questão foi, por fim, elucidada pelo cientista francês Louis Pasteur.
Pasteur demonstrou que os microrganismos estão presentes no ar e podem contaminar soluções estéreis, porém o ar, por si próprio, não origina micróbios. Ele encheu vários frascos, que tinham a abertura em forma de pescoço curto, com caldo de carne e, então, ferveu o conteúdo. Alguns deles ele deixou que esfriassem abertos. Em poucos dias, esses frascos estavam contaminados com micróbios. Os outros frascos, lacrados após a fervura, estavam livres de microrganismos. A partir desses resultados, Pasteur fundamentou que os micróbios do ar eram os agentes responsáveis pela contaminação da matéria não viva.
Pasteur, em seguida, colocou caldo em frascos de pescoço longo, com abertura terminal, e dobrou os pescoços, formando curvas no formato de um S (Figura 1.3). Os conteúdos dos frascos foram então fervidos e resfriados. O meio de cultura nos frascos não apodreceu e não apresentou sinais de vida, mesmo após meses. O modelo único criado por Pasteur permitia que o ar entrasse no frasco, mas o pescoço curvado capturava todos os microrganismos do ar que poderiam contaminar o meio de cultura. (Alguns desses frascos originais ainda estão em exposição no Instituto Pasteur, em Paris. Eles foram lacrados, mas, como o frasco mostrado na Figura 1.3, não mostram sinais de contaminação mais de 100 anos depois da realização do experimento.)
Pasteur mostrou que os microrganismos podem estar presentes na matéria não viva – sobre sólidos, em líquidos e no ar. Além disso, ele demonstrou conclusivamente que a vida microbiana pode ser destruída pelo calor e que métodos podem ser idealizados com o objetivo de bloquear o acesso dos microrganismos do ar aos meios nutrientes. Essas descobertas formam a base das técnicas de assepsia, que previnem a contaminação por microrganismos indesejáveis e que agora são práticas rotineiras para muitos procedimentos médicos e em laboratórios. As técnicas modernas de assepsia estão entre os primeiros e mais importantes conceitos que um iniciante em microbiologia aprende.
O trabalho de Pasteur forneceu evidências de que os microrganismos não podem se originar das forças místicas presentes em materiais não vivos. Ao contrário, o surgimento de vida “espontânea” em soluções não vivas pode ser atribuído aos microrganismos que já estavam presentes no ar e nos próprios fluidos. Os cientistas agora acreditam que provavelmente uma forma de geração espontânea ocorreu na Terra primitiva, quando a primeira vida surgiu, mas concordam que isso não acontece sob as condições ambientais atuais.
A idade de ouro da microbiologia 
O período de 1857 a 1914 foi apropriadamente chamado de a Idade de Ouro da Microbiologia. Avanços rápidos, proporcionados principalmente por Pasteur e Robert Koch, levaram ao estabelecimento da microbiologia. As descobertas incluíram tanto os agentes causadores de muitas doenças, quanto o papel da imunidade na prevenção e na cura das enfermidades. Durante esse produtivo período, os microbiologistas estudaram as atividades químicas de microrganismos, melhoraram as técnicas de microscopia e de cultivo de microrganismos e desenvolveram vacinas e técnicas cirúrgicas. Alguns dos principais eventos que ocorreram durante a Idade de Ouro da Microbiologia estão listados na Figura 1.4.




Fermentação e pasteurização 
Uma das etapas fundamentais que estabeleceu a relação entre microrganismos e doenças ocorreu quando um grupo de mercadores franceses pediu a Pasteur que descobrisse por que o vinho e a cerveja azedavam. Eles esperavam desenvolver um método que impedisse a deterioração dessas bebidas quando enviadas a longas distâncias. Naquele tempo, muitos cientistas acreditavam que o ar convertia os açúcares desses fluidos em álcool. Pasteur descobriu, ao contrário, que microrganismos, chamados de leveduras, convertiam os açúcares em álcool na ausência de ar. Esse processo, chamado de fermentação (ver Capítulo 5, p. 127), é utilizado na produção de vinho e cerveja. O azedamento e a deterioração são causados por organismos diferentes, chamados de bactérias. Na presença de ar, bactérias transformam o álcool em vinagre (ácido acético).
A solução de Pasteur para o problema da deterioração foi o aquecimento da cerveja e do vinho o suficiente para matar a maioria das bactérias que causavam o estrago. Esse processo, chamado de pasteurização, hoje é comumente utilizado, a fim de se reduzir a deterioração e de se destruir bactérias potencialmente nocivas presentes no leite, bem como em algumas bebidas alcoólicas.
A teoria do germe da doença 
Antes da época de Pasteur, os tratamentos eficazes para muitas doenças foram descobertos por tentativa e erro, mas as causas das doenças eram desconhecidas. A descoberta de que as leveduras têm um papel fundamental na fermentação foi a primeira ligação entre a atividade de um microrganismo e as mudanças físicas e químicas nas matérias orgânicas. Essa descoberta alertou os cientistas para a possibilidade de que os microrganismos pudessem ter relações similares com plantas e animais – especificamente, que os microrganismos pudessem causar doenças. Essa ideia ficou conhecida como teoria do germe da doença.
A teoria do germe encontrou grande resistência no começo, tendo em vista que por séculos acreditava-se que as doenças eram punições para um crime ou delito de um indivíduo. Quando os habitantes de toda uma aldeia ficavam doentes, as pessoas frequentemente colocavam a culpa da doença em demônios que apareciam como odores fétidos de esgotos ou nos vapores venenosos dos pântanos. A maioria das pessoas nascidas na época de Pasteur achava inconcebível que micróbios “invisíveis” pudessem viajar pelo ar e infectar plantas e animais, ou permanecer em roupas e camas para serem transmitidos de uma pessoa para outra. Apesar dessas dúvidas, os cientistas acumularam gradualmente as informações necessárias para sustentar a nova teoria do germe.
Em 1865, Pasteur foi chamado para ajudar no combate à doença do bicho-da-seda, que estava arruinando a indústria da seda em toda a Europa. Décadas antes, o microscopista amador Agostino Bassi tinha provado que outra doença do bicho-da- -seda era causada por um fungo. Utilizando os dados fornecidos por Bassi, Pasteur descobriu que a infecção mais recente era causada por um protozoário e, então, desenvolveu um método para identificar os bichos-da-seda que estavam contaminados.
Em 1860, Joseph Lister, um cirurgião inglês, aplicou a teoria do germe nos procedimentos médicos. Lister estava ciente de que, em 1840, o médico húngaro Ignaz Semmelweis tinha demonstrado que os médicos, que naquela época não faziam assepsia das mãos, transmitiam infecções rotineiramente (febre puerperal ou em crianças recém-nascidas) de uma paciente de obstetrícia para outra. Lister também tinha conhecimento sobre o trabalho de Pasteur relacionando os micróbios com as doenças em animais. Desinfetantes não eram usados naquela época, mas Lister sabia que o fenol (ácido carbólico) matava as bactérias, então começou a tratar as feridas cirúrgicas com uma solução de fenol. A prática para reduzir a incidência de infecções e morte foi adotada rapidamente por outros cirurgiões. Suas descobertas provaram que os microrganismos provocam infecções em feridas cirúrgicas.
A primeira evidência de que bactérias realmente causam doenças veio de Robert Koch, em 1876. Koch, um médico alemão, era o jovem rival de Pasteur na corrida para descobrir a causa do antraz, doença que estava destruindo os rebanhos de gado e ovelhas na Europa. Koch descobriu bactérias em forma de bacilos, conhecidas atualmente como Bacillus anthracis, no sangue de um rebanho que morreu de antraz. Ele cultivou a bactéria em meio de cultura e, então, injetou amostras da cultura em animais saudáveis. Quando esses animais adoeceram ou morreram, Koch isolou a bactéria presente no sangue e a comparou com a bactéria originalmente isolada. Ele descobriu que as duas amostras continham a mesma bactéria.
Dessa forma, Koch estabeleceu os Postulados de Koch, uma sequência de etapas experimentais capazes de relacionar diretamente um micróbio específico a uma doença específica (ver Figura 14.3, p. 395). Durante os últimos 100 anos, esses mesmos critérios têm sido extremamente úteis nas investigações para provar que microrganismos específicos causam muitas doenças. Os postulados de Koch, suas limitações e suas aplicações nas doenças serão discutidos em mais detalhes no Capítulo 14.
Vacinação 
Frequentemente um tratamento ou um procedimento preventivo é desenvolvido antes que os cientistas saibam como funciona. A vacina contra a varíola é um exemplo disso. Quase 70 anos antes de Koch estabelecer que um microrganismo específico causava o antraz, Edward Jenner, um jovem médico inglês, iniciou um experimento para descobrir um modo de proteger as pessoas da varíola. A doença periodicamente varria a Europa, matando milhares de pessoas, e também foi responsável por eliminar 90% dos norte-americanos nativos da Costa Leste americana, quando os colonizadores europeus trouxeram a infecção ao Novo Mundo.
Quando uma jovem que trabalhava na ordenha de vacas informou a Jenner que ela não contraía varíola porque já havia estado doente de varíola bovina* – doença mais branda que a varíola – ele decidiu testar a história da jovem. Primeiro, Jenner coletou raspados das feridas provenientes das vacas. Então, ele inoculou um voluntário de 8 anos de idade com o material retirado das feridas através de pequenos arranhões no braço do garoto com uma agulha contaminada. Os arranhões deram origem a bolhas. Em poucos dias, o voluntário estava com uma forma amena da doença, mas se recuperou e nunca mais contraiu nem a varíola bovina e nem a varíola humana. A proteção contra a doença fornecida pela vacinação (ou através da recuperação da doença em si) é chamada de imunidade. Discutiremos os mecanismos de imunidade no Capítulo 17.
Anos após o experimento de Jenner, Pasteur desvendou porque a vacinação funciona. Ele descobriu que a bactéria causadora da cólera aviária perde a sua capacidade de causar doença (perde a sua virulência, ou torna-se avirulenta) após cultivo em laboratório por longos períodos. Contudo, essa bactéria e outros microrganismos com virulência diminuída eram capazes de induzir imunidade contra infecções subsequentes por seus companheiros virulentos. A descoberta desse fenômeno forneceu a chave para o sucesso do experimento de Jenner com varíola bovina. Tanto a varíola humana quanto a bovina são causadas por vírus. Mesmo que o Cowpox virus não seja um derivado produzido em laboratório do vírus causador da varíola, sua semelhança com o vírus da varíola é tão grande que ele pode induzir imunidade contra ambas as viroses. Pasteur utilizou o termo vacina para culturas de microrganismos avirulentos utilizados para inoculação preventiva. (A palavra em latim vacca significa vaca – dessa forma, o termo vacina é uma homenagem ao trabalho anterior de Jenner, sobre a inoculação da varíola bovina.)
O experimento de Jenner, na verdade, não foi o primeiro a utilizar um agente viral vivo – neste caso, o vírus Cowpox – para produzir imunidade. Com início em 1500, médicos chineses imunizavam pacientes contra a varíola através da remoção de raspados de pústulas secas de um indivíduo acometido por um quadro brando da doença, moendo os raspados até que estes se tornassem um pó fino e, após, inoculando o pó no nariz da pessoa a ser imunizada.
Algumas vacinas ainda são produzidas a partir de linhagens de microrganismos avirulentos que estimulam a imunidade contra uma linhagem virulenta relacionada. Outras vacinas são feitas a partir de micróbios virulentos mortos, de componentes isolados de microrganismos virulentos, ou por técnicas de engenharia genética.
O nascimento da quimioterapia moderna: sonhos de uma “bala mágica” 
Após a relação entre microrganismos e doenças ter sido estabelecida, os médicos microbiologistas direcionaram as novas pesquisas para a busca de substâncias que pudessem destruir o microrganismo patogênico sem causar nenhum mal à pessoa ou ao animal infectado. O tratamento de uma doença através da utilização de substâncias químicas é chamado de quimioterapia. (O termo se refere também ao tratamento químico de doenças não infecciosas, como o câncer.) Substâncias químicas produzidas naturalmente por bactérias e fungos para atuar contra outros microrganismos são chamadas de antibióticos. Os agentes quimioterápicos preparados a partir de compostos químicos em laboratório são chamados de medicamentos sintéticos. O sucesso da quimioterapia baseia-se no fato de que alguns compostos químicos são mais nocivos aos microrganismos do que ao hospedeiro infectado. A terapia antimicrobiana será discutida em detalhes no Capítulo 20.
Os primeiros medicamentos sintéticos 
Paul Ehrlich foi o idealista que disparou o primeiro tiro na revolução quimioterápica. Como estudante de medicina, Ehrlich especulou sobre uma “bala mágica” que pudesse combater e destruir o patógeno sem prejudicar o hospedeiro. Em 1910, após testar centenas de substâncias, ele descobriu um agente quimioterápico, chamado de salvarsan, derivado de arsênico, efetivo contra a sífilis. O agente foi chamado de salvarsan por ter sido considerado a salvação contra a sífilis e conter arsênio. Antes dessa descoberta, o único químico conhecido no arsenal médico europeu era um extrato retirado da casca de uma árvore sul-americana, o quinino, que havia sido usado pelos conquistadores espanhóis no tratamento da malária.
No final da década de 1930, os pesquisadores desenvolveram diversos outros medicamentos sintéticos que podiam destruir microrganismos. A maioria desses medicamentos era derivada de corantes. Isso aconteceu porque os corantes, sintetizados e produzidos para tecidos, eram rotineiramente testados em relação à atividade antimicrobiana pelos microbiologistas, que procuravam a “bala mágica”. Além disso, as sulfonamidas (medicamentos derivados da sulfa) foram sintetizadas no mesmo período.
Um acidente afortunado: os antibióticos 
O primeiro antibiótico foi descoberto por acidente. Alexander Fleming, médico e bacteriologista escocês, quase descartou algumas placas de cultura que haviam sido contaminadas por fungos. Felizmente, ele percebeu um curioso padrão de crescimento nas placas – uma área clara, onde o crescimento bacteriano havia sido inibido, se apresentava ao redor do fungo (Figura 1.5). Fleming estava diante de um fungo que inibiu o crescimento de uma bactéria. O fungo ficou conhecido como Penicillium chrysogenum, e o inibidor ativo deste fungo foi chamado de penicilina. Assim, a penicilina é um antibiótico produzido por um fungo. A enorme utilidade da penicilina não foi notada até a década de 1940, quando foi testada clinicamente e produzida em grande escala.
Desde as descobertas iniciais dos antibióticos, milhares de outros foram desenvolvidos. Infelizmente, os antibióticos e outros fármacos quimioterápicos não estão livres de problemas. Muitos fármacos antimicrobianos matam os micróbios patogênicos, mas também produzem danos ao hospedeiro infectado. Por razões que serão discutidas mais tarde, a toxicidade para seres humanos é um problema específico no desenvolvimento de medicamentos para o tratamento de doenças virais. O crescimento viral depende dos processos vitais das células hospedeiras normais. Assim, existem poucos medicamentos antivirais efetivos, pois um medicamento capaz de interferir na reprodução viral também pode afetar as células não infectadas do corpo.
Ao longo dos anos, cada vez mais micróbios também desenvolveram resistência a antibióticos que um dia já foram bastante efetivos contra eles. A resistência aos fármacos resulta de mudanças genéticas nos micróbios, tornando-os capazes de tolerar certa quantidade de um antibiótico, que normalmente inibiria o seu crescimento (ver quadro no Capítulo 26, p. 756). Por exemplo, um micróbio pode produzir enzimas que inativam os antibióticos, ou um microrganismo pode sofrer alterações em sua superfície que impedem a ligação ou a entrada de um fármaco.
O surgimento recente de Staphylococcus aureus e Enterococcus faecalis resistentes à vancomicina deixou em alerta os profissionais da saúde, uma vez que esse fato indica que algumas infecções bacterianas previamente tratáveis podem, em breve, se tornar impossíveis de serem tratadas com antibióticos.



Progressos recentes na microbiologia 
A questão da solução da resistência a fármacos, a identificação de viroses e o desenvolvimento de vacinas requerem técnicas de pesquisas sofisticadas e estudos correlacionados que nunca foram imaginados na época de Koch e Pasteur.
A fundamentação estabelecida durante a Idade do Ouro da Microbiologia forneceu as bases para diversas conquistas extraordinárias nos anos seguintes (Tabela 1.2). Novos ramos da microbiologia foram desenvolvidos, incluindo a imunologia e a virologia. Mais recentemente, o desenvolvimento de uma série de novos métodos, chamados de tecnologia do DNA recombinante, revolucionou as pesquisas e as aplicações práticas em todas as áreas da microbiologia.


Bacteriologia, micologia e parasitologia 
A bacteriologia, o estudo das bactérias, começou com as primeiras observações dos raspados de dentes de van Leeuwenhoek. Novas bactérias patogênicas ainda são descobertas frequentemente. Muitos bacteriologistas, como Pasteur, estudaram os papéis das bactérias nos alimentos e no meio ambiente. Uma descoberta intrigante ocorreu em 1997, quando Heide Schulz descobriu uma bactéria grande o bastante para ser vista a olho nu (0,2 mm de largura). Essa bactéria, chamada de Thiomargarita namibiensis, vive no lodo, na costa africana. A Thiomargarita é incomum devido ao seu tamanho e nicho ecológico. A bactéria consome sulfito de hidrogênio, que seria tóxico aos animais que habitam o lodo (Figura 11.28, p. 315).
A micologia, que estuda os fungos, inclui os ramos da medicina, agricultura e ecologia. As taxas de infecções fúngicas aumentaram durante a última década, representando 10% das infecções adquiridas em hospitais. Acredita-se que as alterações climáticas e ambientais (seca severa) sejam responsáveis pelo aumento de dez vezes nas taxas de infecção por Coccidioides immitis na Califórnia. Novas técnicas para o diagnóstico e o tratamento das infecções fúngicas estão sendo investigadas.
A parasitologia é o estudo de protozoários e vermes parasitos. Devido ao fato de muitos vermes parasitos serem grandes o bastante para serem vistos a olho nu, esses organismos são conhecidos há milhares de anos. Especula-se que o símbolo da medicina, o bastão de Asclepius, represente a remoção de vermes parasitos da Guiné (Figura 1.6). Asclepius era um médico grego que praticava o ofício por volta de 1.200 a.C. e foi consagrado o deus da medicina.


A derrubada de florestas tropicais tem exposto os trabalhadores a parasitos previamente desconhecidos. Doenças parasitárias desconhecidas até recentemente também são encontradas em pacientes cujos sistemas imunes foram suprimidos por transplantes de órgãos, quimioterapia para câncer ou Aids.
A bacteriologia, a micologia e a parasitologia estão passando atualmente pela “era de ouro da classificação”. Avanços recentes no campo da genômica, o estudo de todos os genes de um organismo, permitiu aos cientistas classificarem bactérias e fungos de acordo com as suas relações genéticas com outras bactérias, fungos e protozoários. Esses microrganismos foram originalmente classificados de acordo com um número limitado de características visíveis.
Imunologia 
A imunologia é o estudo da imunidade. O conhecimento acerca do sistema imune tem se acumulado de forma constante e expandiu-se rapidamente. Estão disponíveis vacinas para diversas doenças, incluindo sarampo, rubéola (sarampo alemão), caxumba, catapora, pneumonia pneumocócica, tétano, tuberculose, gripe, coqueluche, poliomielite e hepatite B. A vacina contra a varíola foi tão eficiente que a doença foi eliminada. Os órgãos oficiais de saúde pública estimam que a pólio será erradicada dentro de poucos anos pelo uso da vacina contra a poliomielite.
Um grande avanço na imunologia ocorreu em 1933, quando Rebecca Lancefield (Figura 1.7) propôs que os estreptococos fossem classificados de acordo com sorotipos (variantes dentro de uma espécie) com base em certos componentes presentes nas paredes celulares das bactérias. Os estreptococos são responsáveis por várias doenças, como dor de garganta (faringite estreptocócica), síndrome do choque tóxico estreptocócico e septicemia (envenenamento do sangue).
Em 1960, os interferons, substâncias geradas pelo sistema imune do próprio corpo, foram descobertos. Os interferons inibem a replicação viral e têm desencadeado um número considerável de pesquisas relacionadas ao tratamento das doenças virais e do câncer. Atualmente, um dos maiores desafios para os imunologistas é descobrir como o sistema imune pode ser estimulado para repelir o vírus responsável pela Aids, a doença que destrói o sistema imune.


Virologia 
O estudo dos vírus, a virologia, originou-se durante a Idade do Ouro da Microbiologia. Em 1892, Dmitri Iwanowski relatou que o organismo que causava a doença do mosaico no tabaco era tão pequeno que podia atravessar filtros finos o bastante para reter todas as bactérias conhecidas. Naquela época, Iwanowski não estava ciente de que o organismo em questão era um vírus. Em 1935, Wendell Stanley mostrou que o organismo, chamado de vírus do mosaico do tabaco (TMV, de tobacco mosaic virus), era fundamentalmente diferente dos outros micróbios e tão simples e homogêneo que poderia ser cristalizado como um composto químico. O trabalho de Stanley facilitou o estudo da estrutura e da química viral. A partir do desenvolvimento do microscópio eletrônico, na década de 1940, os microbiologistas puderam observar a estrutura dos vírus em detalhes, e atualmente muito mais é conhecido sobre a atividade e a estrutura desses organismos.
Tecnologia do DNA recombinante 
Os microrganismos podem agora ser modificados geneticamente para a fabricação de uma grande quantidade de hormônios humanos e outras substâncias médicas que são extremamente necessárias. No final da década de 1960, Paul Berg mostrou que fragmentos do DNA (genes) humano ou animal que codificam proteínas importantes podem ser ligados ao DNA bacteriano. O híbrido resultante foi o primeiro exemplo de DNA recombinante. A tecnologia do DNA recombinante (rDNA) insere DNA recombinante em uma bactéria (ou outros micróbios) para a produção de grandes quantidades de uma proteína desejada. Este campo combina elementos de duas outras áreas de estudo, incluindo a genética microbiana, que estuda os mecanismos pelos quais os microrganismos herdam características, e a biologia molecular, que estuda como a informação genética é carreada em moléculas de DNA e como o DNA direciona a síntese de proteínas.
Embora a biologia molecular envolva todos os organismos, muito do nosso conhecimento de como os genes determinam características específicas tem sido revelado por meio de experimentos com bactérias. Organismos unicelulares, principalmente bactérias, possuem diversas vantagens para a pesquisa genética e bioquímica. As bactérias são menos complexas do que plantas e animais e o ciclo de vida de muitas bactérias dura menos do que uma hora; dessa forma, os cientistas podem cultivar números muito grandes de bactérias para estudo em um período de tempo relativamente curto.
Uma vez que a ciência se voltou para o estudo da vida unicelular, um rápido progresso foi observado no campo da genética. Na década de 1940, George W. Beadle e Edward L. Tatum demonstraram a relação entre genes e enzimas; o DNA foi estabelecido como o material hereditário por Oswald Avery, Colin MacLeod e Maclyn McCarty; e Joshua Lederberg e Edward L. Tatum descobriram que o material genético pode ser transferido de uma bactéria a outra por meio de um processo chamado de conjugação. Assim, na década de 1950, James Watson e Francis Crick propuseram um modelo para a estrutura e replicação do DNA. O início da década de 1960 testemunhou uma verdadeira explosão de descobertas relacionadas com o modo pelo qual o DNA controla a síntese proteica. François Jacob e Jacques Monod descobriram o RNA (ácido ribonucleico) mensageiro, uma substância química envolvida na síntese de proteínas, e, posteriormente, fizeram as principais descobertas sobre a regulação da função dos genes em bactérias. Durante o mesmo período, os cientistas desvendaram o código genético, podendo, assim, compreender como a informação para a síntese proteica no RNA mensageiro era traduzida nas sequências de aminoácidos para produzir as proteínas.
Os micróbios e o bem-estar humano
Como mencionado anteriormente, apenas uma minoria dos microrganismos é patogênica. Os micróbios que causam deterioração de alimentos, como partes amolecidas em frutos e vegetais, decomposição de carnes e ranço de gorduras e óleos, também são uma minoria. A grande maioria dos microrganismos é benéfica ao ser humano, a outros animais e também às plantas de múltiplas e diferentes maneiras. Por exemplo, os micróbios produzem metano e etanol, que podem ser utilizados como combustíveis alternativos na geração de eletricidade e para o abastecimento de veículos.
As empresas de biotecnologia estão utilizando enzimas bacterianas para degradar a celulose das plantas, para que leveduras consigam metabolizar os açúcares simples resultantes e produzir, assim, etanol. As seções seguintes mostrarão algumas dessas atividades benéficas. Nos capítulos finais, discutiremos essas características em mais detalhes.
Reciclagem de elementos vitais 
As descobertas feitas por dois microbiologistas, na década de 1880, formaram a base para o conhecimento atual dos ciclos biogeoquímicos que garantem a vida na Terra. Martinus Beijerinck e Sergei Winogradsky foram os primeiros a demonstrar como as bactérias ajudam a reciclar os elementos vitais do solo e da atmosfera. A ecologia microbiana, os estudos das relações entre microrganismos e seu ambiente, originou-se com o trabalho desses cientistas. Atualmente, a ecologia microbiana apresenta vários ramos, incluindo os estudos de como as populações microbianas interagem com plantas e animais nos diferentes ambientes. Entre as preocupações dos ecologistas microbianos estão a poluição das águas e a presença dos compostos tóxicos no ambiente.
Os elementos químicos carbono, nitrogênio, oxigênio, enxofre e fósforo são essenciais para a manutenção da vida e são abundantes, mas não necessariamente nas formas em que possam ser utilizados pelos organismos. Os microrganismos são os principais responsáveis pela conversão desses elementos em formas que possam ser utilizadas por plantas e animais. Os microrganismos, sobretudo bactérias e fungos, devolvem o dióxido de carbono para a atmosfera quando decompõem resíduos orgânicos, bem como animais e vegetais mortos. Algas, cianobactérias e plantas superiores utilizam o dióxido de carbono durante a fotossíntese para produzir carboidratos para animais, fungos e bactérias. O nitrogênio é abundante na atmosfera, porém em uma forma não utilizável por plantas e animais. Somente as bactérias podem converter naturalmente o nitrogênio atmosférico em formas disponíveis para plantas e animais.
Tratamento de esgoto: utilizando os micróbios para a reciclagem da água 
Com a crescente conscientização da sociedade sobre a necessidade de preservar o ambiente, muito mais pessoas estão conscientes da responsabilidade de reciclar a tão preciosa água e prevenir a poluição de rios e oceanos. Uma das maiores fontes de poluição é o esgoto doméstico, que consiste em excrementos humanos, água suja, lixos industriais e águas fluviais. O esgoto é constituído por cerca de 99,9% de água, com poucos centésimos de 1% de sólidos em suspensão. O restante é uma variedade de materiais dissolvidos.
As estações de tratamento de esgoto removem os materiais indesejáveis e os microrganismos nocivos. Os tratamentos combinam vários processos físicos com a ação de micróbios benéficos. Os sólidos maiores, como papel, madeira, vidro, cascalho e plástico, são removidos do esgoto; o restante é composto por líquidos e materiais orgânicos que as bactérias convertem em produtos secundários, como dióxido de carbono, nitratos, fosfatos, sulfatos, amônia, sulfito de hidrogênio e metano. (O tratamento de esgoto será discutido em mais detalhes no Capítulo 27.)
Biorremediação: utilizando os micróbios para a limpeza de poluentes 
Em 1988, os cientistas começaram a utilizar micróbios para limpar poluentes e resíduos tóxicos produzidos por vários processos industriais. Por exemplo, algumas bactérias podem, na verdade, utilizar poluentes como fontes de energia; outras podem produzir enzimas que quebram as toxinas em substâncias menos nocivas. Ao utilizar as bactérias dessa forma – processo conhecido como biorremediação –, toxinas podem ser removidas de poços subterrâneos, derramamentos químicos, depósitos de resíduos tóxicos e derramamentos de petróleo, como o caso do derramamento em massa de uma plataforma oceânica de perfuração de petróleo da British Petroleum, no Golfo do México, em 2010 (ver também o quadro Aplicações da microbiologia, no Capítulo 2, p. 31). Além disso, as enzimas bacterianas são usadas no desentupimento de bueiros, sem a necessidade de adicionar químicos nocivos ao ambiente. Em alguns casos, são utilizados microrganismos nativos ao ambiente; em outros, são aplicados micróbios modificados geneticamente. Entre os micróbios mais comumente utilizados estão determinadas espécies de bactérias dos gêneros Pseudomonas e Bacillus. As enzimas de Bacillus são usadas em detergentes domésticos para a remoção de manchas das roupas.
Controle de pragas de insetos por microrganismos 
Além de espalhar doenças, os insetos podem devastar plantações. O controle de pragas é, portanto, importante para a agricultura e na prevenção de doenças humanas.
A bactéria Bacillus thuringiensis tem sido extensivamente utilizada nos Estados Unidos para o controle de pragas, como a lagarta-da-alfafa, lagarta-do-algodoeiro, brocas-do-milho, lagarta-do-repolho, a lagarta-das-maçãs e a lagarta-enroladeira de folhas de árvores frutíferas. A bactéria é pulverizada sobre as plantações atacadas por esses insetos. Ela produz cristais proteicos que são tóxicos para o sistema digestório dos insetos. O gene da toxina também foi inserido em algumas plantas, a fim de torná-las resistentes a insetos.
Pelo uso de controles microbianos, em vez de produtos químicos, os fazendeiros podem evitar prejuízos ao ambiente. Muitos inseticidas químicos, com o DDT, permanecem no solo como poluentes tóxicos e acabam sendo incorporados na cadeia alimentar.
Biotecnologia moderna e tecnologia do DNA recombinante 
Anteriormente, comentamos sobre o uso comercial de microrganismos na produção de alguns alimentos comuns e compostos químicos. Essas aplicações práticas da microbiologia são chamadas de biotecnologia. Embora a biotecnologia tenha sido utilizada de diferentes maneiras por séculos, as técnicas se tornaram mais sofisticadas nas últimas décadas. Há alguns anos, a biotecnologia passou por uma revolução com o advento da tecnologia do DNA recombinante, expandindo o potencial de bactérias, vírus, células de leveduras e outros fungos para serem utilizados como fábricas bioquímicas em miniatura. Culturas de células animais e vegetais, assim como animais e plantas intactos, são utilizados como organismos e células recombinantes.
As aplicações da tecnologia do DNA recombinante estão aumentando a cada ano. As técnicas de DNA recombinante têm sido utilizadas para produzir um grande número de proteínas naturais, vacinas e enzimas. Essas substâncias têm grande potencial para uso em medicina; algumas são descritas na Tabela 9.1, na página 242.
Um resultado muito importante e entusiasmante das técnicas de DNA recombinante é a terapia gênica – a inserção de um gene ausente ou a substituição de um gene defeituoso em células humanas. Essa técnica utiliza um vírus inofensivo para transportar um gene ausente ou um novo gene para o interior de certas células hospedeiras, local onde o gene é inserido no cromossomo apropriado. Desde 1990, a terapia gênica tem sido usada para tratar pacientes com deficiência de adenosina desaminase (ADA), uma das causas da doença conhecida como imunodeficiência combinada grave (SCID, de severe combined immunodeficiency disease), em que as células do sistema imune são inativadas ou perdidas; a distrofia muscular de Duchenne, doença que destrói os músculos; a fibrose cística, doença das porções secretoras das vias respiratórias, do pâncreas, das glândulas salivares e das glândulas sudoríparas; e a deficiência do receptor LDL, condição em que os receptores da lipoproteína de baixa densidade (LDL, de low-density lipoprotein) estão defeituosos, não permitindo a entrada de LDL nas células. O LDL permanece no sangue em altas concentrações e leva à formação de placas de gordura nos vasos sanguíneos, aumentando o risco de aterosclerose e doença cardíaca coronariana. Os resultados da terapia gênica ainda estão sendo avaliados. Outras doenças genéticas futuramente também poderão ser tratadas por meio da terapia gênica, incluindo a hemofilia, uma incapacidade de coagulação normal do sangue; o diabetes, caracterizado por níveis elevados de açúcar no sangue; e a anemia falciforme, um tipo anormal de hemoglobina.
Além das aplicações médicas, as técnicas de DNA recombinante também são utilizadas na agricultura. Por exemplo, linhagens de bactérias alteradas geneticamente têm sido desenvolvidas para proteger frutos contra os danos de geadas, e bactérias modificadas para controlar insetos que causam danos às plantações. O DNA recombinante também tem sido usado para melhorar a aparência, o sabor e para aumentar a durabilidade de frutos e vegetais nas prateleiras. Potenciais utilizações da tecnologia do DNA recombinante na agricultura incluem resistência à seca, ao ataque de insetos, a doenças microbianas e ao aumento da tolerância a altas temperaturas de plantas cultivadas.
Microbiota normal 
Todos nós vivemos do nascimento até a morte em um mundo cheio de micróbios, e todos nós temos uma variedade de microrganismos sobre e dentro do nosso corpo. Esses microrganismos constituem a nossa microbiota normal, ou flora2 (Figura 1.8). A microbiota normal não nos faz nenhum mal, podendo em alguns casos ser benéfica. Por exemplo, parte da nossa microbiota normal nos protege contra doenças, impedindo o crescimento elevado de micróbios nocivos, e outra porção da nossa microbiota produz substâncias úteis, como a vitamina K e algumas vitaminas do complexo B. Infelizmente, sob determinadas circunstâncias, a microbiota normal pode nos deixar doentes ou infectar indivíduos que entram em contato conosco. Por exemplo, quando certa microbiota normal sai do seu nicho, ela pode causar doença.
Quando um micróbio é bem-vindo para a saúde humana e quando ele é um vetor de doenças? A distinção entre ter saúde e doença é, em grande parte, um equilíbrio entre as defesas naturais do corpo e as propriedades dos microrganismos de produzir doenças. Se o nosso corpo vai conseguir superar ou não as táticas ofensivas de um micróbio em particular depende da nossa resistência – a capacidade de prevenir doenças. Importantes resistências naturais são fornecidas pela barreira da pele, das membranas mucosas, dos cílios, do ácido estomacal e dos compostos antimicrobianos, como os interferons. Os micróbios podem ser destruídos pelos leucócitos, pela resposta inflamatória, pela febre e pelas respostas específicas do nosso sistema imune. Algumas vezes, quando nossas defesas naturais não são fortes o bastante para reagir a um invasor, elas podem ser suplementadas com antibióticos e outros fármacos.
Biofilmes 
Na natureza, os microrganismos podem existir como células individuais que flutuam ou nadam independentemente em um líquido, ou podem estar ligados uns aos outros e/ou a uma superfície geralmente sólida. Este último modo de comportamento é chamado de biofilme, uma complexa agregação de micróbios. O lodo cobrindo uma rocha em um lago é um biofilme. Você pode usar a língua para sentir o biofilme sobre os seus dentes. Os biofilmes podem ser benéficos, pois são capazes de proteger as membranas mucosas de microrganismos nocivos, e os biofilmes em lagos são um alimento importante para os animais aquáticos. Contudo, eles também podem ser nocivos. Os biofilmes podem entupir os canos de água e, quando crescem sobre implantes médicos, como próteses articulares e cateteres (Figura 1.9), têm a capacidade de causar infecções, como as endocardites (inflamação do coração). As bactérias nos biofilmes frequentemente são resistentes a antibióticos, pois os biofilmes oferecem uma barreira protetora contra a ação antibiótica. Ver o quadro no Capítulo 3, página 54. Biofilmes serão discutidos no Capítulo 6.
Doenças infecciosas 
Uma doença infecciosa é aquela em que patógenos invadem um hospedeiro suscetível, como um ser humano ou um animal. Nesse processo, o patógeno efetua pelo menos uma parte do seu ciclo de vida dentro do hospedeiro, o que, com frequência, resulta em uma doença. No final da Segunda Guerra Mundial, muitas pessoas acreditavam que as doenças infecciosas estavam sob controle. Elas pensavam que a malária seria erradicada pelo uso do inseticida DDT para matar os mosquitos transmissores, que uma vacina preveniria a difteria e que as melhorias nas medidas sanitárias ajudariam a impedir a transmissão da cólera. A malária ainda está longe de ser eliminada. Desde 1986, surtos locais têm sido identificados em Nova Jersey, Califórnia, Flórida, Nova York e Texas, e a doença afeta 300 milhões de pessoas no mundo inteiro. Em 1994, a difteria apareceu nos Estados Unidos por meio de viajantes vindos dos novos países independentes que formavam a União Soviética, que tinham experimentado uma intensa epidemia de difteria. A epidemia foi controlada em 1998. Os surtos de cólera ainda ocorrem em países menos desenvolvidos do mundo.
Doenças infecciosas emergentes 
Esses surtos recentes apontam para o fato de que as doenças infecciosas não estão desaparecendo, pelo contrário, parecem estar crescendo e reemergindo. Além disso, algumas novas doenças – doenças infecciosas emergentes (DIE) – têm surgido nos últimos anos. Essas são doenças novas ou modificações de doenças já existentes e estão aumentando ou possuem potencial para aumentar a incidência em um futuro próximo. Fatores que têm contribuído para o desenvolvimento de DIEs são alterações evolutivas em organismos existentes (p. ex., Vibrio cholerae); a disseminação de doenças conhecidas para novas regiões geográficas ou populações por transporte moderno (p. ex., vírus do Oeste do Nilo); e o aumento da exposição humana a novos e incomuns agentes infecciosos em áreas que estão sofrendo mudanças ecológicas, como desmatamento e construção (p. ex., vírus da febre hemorrágica venezuelana). As DIEs também se desenvolvem como o resultado da resistência antimicrobiana (p. ex., S. aureus resistente à vancomicina). O aumento do número de ocorrências nos últimos anos ressalta a extensão do problema.
Entre abril de 2012 e junho de 2014, foram notificados 339 casos confirmados e 100 mortes de seres humanos causadas por um novo vírus, chamado de coronavírus da síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS-CoV, de Middle East respiratory syndrome coronavirus). O vírus pertence à mesma família daquele responsável por doenças que vão desde o resfriado comum até a síndrome respiratória aguda severa (SARS), que será descrita em breve. Devido ao fato de que todos os casos relatados estão relacionados ao Oriente Médio, essa recente doença infecciosa emergente é chamada de síndrome respiratória do Oriente Médio.
A síndrome respiratória aguda severa (SARS) é uma doença infecciosa emergente que surgiu primeiramente na China, em 2002. É uma infecção viral causada pelo coronavírus associado à SARS (SARS-CoV, de SARS-associated coronavirus).
A influenza H1N1 (gripe), também conhecida como gripe suína, é um tipo de gripe causada por um novo vírus, chamado de influenza H1N1. O H1N1 foi primeiramente detectado nos Estados Unidos, em 2009, e neste mesmo ano a Organização Mundial de Saúde declarou que a gripe H1N1 era uma doença pandêmica (doença que afeta grandes números de indivíduos em um curto período de tempo e possui abrangência mundial).
A influenza A aviária (H5N1), ou gripe aviária, chamou a atenção do público em 2003, quando matou milhares de aves domésticas e 24 pessoas no sudeste da Ásia. Os vírus da influenza aviária ocorrem em pássaros no mundo inteiro. Em 2013, uma influenza aviária diferente, a H7N9, acometeu 131 pessoas na China.
Os vírus influenza A são encontrados em muitos animais diferentes, incluindo patos, galinhas, porcos, baleias, cavalos e golfinhos. Normalmente, cada subtipo de influenza A é específico para uma determinada espécie. Contudo, o vírus influenza A, em geral encontrado em uma espécie, algumas vezes pode ser transmitido para outra, causando doença, e todos os subtipos de influenza A podem infectar porcos. Embora não seja comum que as pessoas adquiram infecções por influenza diretamente de animais, infecções esporádicas em seres humanos e surtos causados por certos vírus influenza A e influenza de porcos têm sido rela2 m Staphylococcus SEM Figura 1.9 Biofilme sobre um cateter. A bactéria Staphylococcus liga-se nas superfícies sólidas, formando uma camada limosa. As bactérias liberadas deste biofilme podem causar infecções. Como uma barreira protetora de biofilme torna a bactéria resistente a antibióticos? CAPÍTULO 1 O mundo microbiano e você 17 tados. Até 2008, a influenza aviária infectou 242 pessoas, levando metade delas ao óbito. Felizmente, o vírus ainda não evoluiu para ser transmitido com sucesso entre os seres humanos.
Infecções em seres humanos pelo vírus da influenza aviária, detectadas desde 1997, não têm resultado em transmissão sustentada de pessoa para pessoa. Contudo, como os vírus influenza têm o potencial de mudar e ganhar a habilidade de se disseminar facilmente entre as pessoas, o monitoramento das infecções humanas e da transmissão de pessoa para pessoa é importante (ver o quadro no Capítulo 13, p. 363).
Os antibióticos são fundamentais para o tratamento das infecções bacterianas. Contudo, anos de uso intensivo, bem como o uso inadequado desses fármacos, têm criado ambientes nos quais as bactérias resistentes a antibióticos prosperam. Mutações ao acaso em genes bacterianos podem fazer uma bactéria tornar-se resistente a um antibiótico. Na presença daquele antibiótico, a bactéria tem uma vantagem sobre as outras bactérias suscetíveis, sendo capaz de proliferar. As bactérias resistentes a antibióticos têm se tornado uma crise para a saúde global.
O Staphylococcus aureus causa uma grande variedade de infecções em seres humanos, de espinhas e furúnculos a pneumonias, intoxicações alimentares e infecções em feridas cirúrgicas, sendo também uma importante causa de infecções hospitalares. Após o sucesso inicial da penicilina no tratamento das infecções por S. aureus, linhagens dessa bactéria resistentes à penicilina tornaram- -se a principal ameaça nos hospitais na década de 1950, requerendo o uso de meticilina. Na década de 1980, S. aureus resistentes à meticilina, chamados de MRSA, emergiram e se tornaram endêmicos em muitos hospitais, levando a um aumento no uso da vancomicina. No final da década de 1990, infecções por S. aureus que se mostraram menos sensíveis à vancomicina (S. aureus intermediário à vancomicina, ou VISA, de vancomycin-intermediate S. aureus) foram relatadas. Em 2002, a primeira infecção causada por S. aureus resistentes à vancomicina (VRSA, de vancomycin-resistant S. aureus) foi relatada em um paciente nos Estados Unidos.
As substâncias antibacterianas adicionadas a diversos produtos de limpeza domésticos são semelhantes aos antibióticos de várias maneiras. Quando utilizadas de forma correta, elas inibem o crescimento bacteriano. Contudo, a limpeza de toda a superfície doméstica com esses agentes antibacterianos produz um ambiente no qual as bactérias resistentes sobrevivem. Infelizmente, quando você precisa desinfetar a casa e as mãos – por exemplo, quando um membro da família recebe alta no hospital, volta para casa e ainda está vulnerável a infecções – você pode encontrar principalmente bactérias resistentes.
A rotina de limpeza doméstica e a lavagem das mãos são necessárias, mas sabão comum e detergentes (sem a adição de antibacterianos) são suficientes para essa finalidade. Além disso, compostos químicos que evaporam rápido, como os alvejantes de cloro, álcool, amônia e peróxido de hidrogênio, removem as bactérias potencialmente patogênicas, mas não deixam resíduos que poderiam selecionar o crescimento de bactérias resistentes.
A encefalite do Oeste do Nilo (WNE, de West Nile encephalitis) é uma inflamação do cérebro causada pelo vírus do Oeste do Nilo* (ver o quadro Foco clínico, p. 215). Essa doença foi primeiramente diagnosticada em Uganda, na região oeste do Nilo, em 1937. Em 1999, o vírus apareceu pela primeira vez na América do Norte, infectando seres humanos na cidade de Nova York. Em 2007, ele infectou cerca de 3.600 pessoas em 43 estados americanos. O vírus do Oeste do Nilo está agora estabilizado em aves não migratórias em 48 Estados dos Estados Unidos. O vírus, transportado por aves, é transmitido entre pássaros por mosquitos, e da mesma forma para seres humanos e cavalos. Ele pode ter chegado aos Estados Unidos por meio de um viajante infectado ou por pássaros migratórios.
Em 1996, países em todo o mundo se recusaram a importar carne bovina do Reino Unido, onde centenas de milhares de reses bovinas nascidas após 1988 tiveram de ser sacrificadas devido a uma epidemia de encefalopatia espongiforme bovina, também chamada de EEB ou doença da vaca louca. A EEB chamou a atenção dos microbiologistas pela primeira vez em 1986, como uma das diversas doenças causadas por uma proteína infecciosa, chamada de príon. Estudos sugeriram que a fonte da doença teria sido uma ração de gado preparada a partir de ovelhas infectadas com a sua própria versão da doença. Gados bovinos são herbívoros (se alimentam de plantas), mas ao adicionar proteína à sua ração, seu crescimento e a sua saúde são melhorados. A doença de Creutzfeldt-Jakob ou CJD (de Creutzfeldt-Jakob disease) é uma doença humana causada por um príon. A incidência de CJD no Reino Unido é similar à incidência em outros países. Contudo, por volta de 2005, foram relatados no Reino Unido 154 casos humanos da doença causada por uma nova variante relacionada à doença bovina (ver Capítulo 22).
A Escherichia coli é uma habitante normal do intestino grosso dos vertebrados, incluindo seres humanos, e sua presença é benéfica, pois ajuda na produção de certas vitaminas e participa da digestão de alimentos que não seriam digeridos sem a sua presença (ver Capítulo 25). No entanto, uma linhagem, chamada de E. coli O157:H7, causa diarreia sanguinolenta quando cresce nos intestinos. Essa linhagem foi identificada em 1982 e, desde então, tem sido tratada como problema de saúde pública. Atualmente, é uma das principais causas de diarreia no mundo. Em 1996, cerca de 9 mil pessoas no Japão ficaram doentes e sete morreram como resultado de uma infecção por E. coli O157:H7. Os surtos recentes de E. coli O157:H7 nos Estados Unidos, associados com carne malpassada e bebidas não pasteurizadas, levaram os órgãos de saúde a solicitar o desenvolvimento de novos métodos de detecção da bactéria nos alimentos.
Em 2004, a emergência de uma nova linhagem epidêmica de Clostridium difficile foi relatada. A linhagem epidêmica produz mais toxinas dos que as demais e é mais resistente a antibióticos. Nos Estados Unidos, infecções por C. difficile matam aproximadamente 14 mil pessoas por ano. Quase todas as infecções por C. difficile ocorrem em unidades de saúde, onde a infecção é frequentemente transmitida entre pacientes através das pessoas responsáveis pelos cuidados de saúde, cujas mãos se tornam contaminadas após o contato com pacientes infectados ou seu ambiente circundante.
Em 1995, um técnico de laboratório de um hospital na República Democrática do Congo (RDC), que havia apresentado febre e diarreia sanguinolenta, foi submetido a uma cirurgia por suspeita de intestino perfurado. Após a cirurgia, ele teve uma hemorragia, e seu sangue começou a coagular nos vasos sanguíneos. Poucos dias depois, enfermeiros do hospital onde o paciente estava sendo tratado começaram a desenvolver sintomas similares. Um deles foi transferido para um hospital de outra cidade; as pessoas desse segundo hospital que cuidaram desse paciente também desenvolveram os sintomas. Ao término da epidemia, 315 pessoas haviam contraído a febre hemorrágica Ebola, ou FHE, e mais de 75% dessas foram a óbito. A epidemia foi controlada quando os microbiologistas instituíram, após treinamento, o uso de equipamentos de proteção e medidas educativas na comunidade. Contato pessoal com sangue, tecidos ou outros fluidos corporais infectados (ver Capítulo 23) levava à transmissão da doença de pessoa para pessoa.
O vírus Ebola foi primeiramente isolado de seres humanos pelos microbiologistas durante os surtos da doença na RDC em 1976. (O vírus foi assim denominado devido ao rio Ebola da República Democrática do Congo.) Em 2014, a Organização Mundial de Saúde declarou um surto do vírus Ebola na África Ocidental. Em 1989 e 1996, surtos causados por outro vírus Ebola, que não estava associado à doença em seres humanos, ocorreram em macacos que haviam sido importados das Filipinas para os Estados Unidos.
Casos registrados do vírus Marburg, outro vírus de febre hemorrágica, são raros. Os primeiros casos foram de trabalhadores de laboratórios na Europa, que manipulavam macacos- -verdes africanos de Uganda. Quatro surtos foram identificados na África entre 1975 e 1998, envolvendo 2 a 154 pessoas com uma taxa de mortalidade de 56%. Em 2004, um surto matou 227 pessoas. Os morcegos frugívoros africanos são os reservatórios naturais do vírus Marburg, e os microbiologistas suspeitam que os morcegos sejam os reservatórios da FHE.
Em 1993, um surto de criptosporidiose transmitido por meio de suprimentos públicos de água em Milwaukee, Wisconsin, resultou em doença diarreica em aproximadamente 403 mil pessoas. O microrganismo responsável por esse surto foi o protozoário Cryptosporidium. Este protozoário foi relatado primeiramente como causador de doença em seres humanos em 1976, e hoje é responsável por cerca de 30% dos casos de diarreia em países em desenvolvimento. Nos Estados Unidos, a transmissão tem ocorrido via água potável, piscinas e materiais hospitalares contaminados.
A síndrome da imunodeficiência adquirida (Aids, de acquired immunodeficiency syndrome) chamou a atenção do público pela primeira vez em 1981, quando um jovem homossexual morreu de um tipo outrora raro de pneumonia, conhecida como pneumonia por Pneumocystis. Esse homem havia sofrido um grande enfraquecimento do sistema imune, que, em geral, combate as doenças infecciosas. Esses casos foram rapidamente correlacionados com um número incomum de ocorrências de uma forma rara de câncer, o sarcoma de Kaposi, entre jovens homossexuais do sexo masculino. Aumentos similares no aparecimento de doenças raras foram encontrados entre hemofílicos e usuários de drogas injetáveis.
Os pesquisadores rapidamente descobriram que a causa da Aids era um vírus previamente desconhecido (ver Figura 1.1e). O vírus, hoje chamado de vírus da imunodeficiência humana (HIV, de human immunodeficiency virus), destrói as células T CD4, um tipo de linfócito importante para as defesas do sistema imune. A doença e a morte resultam das infecções por microrganismos ou pelo surgimento de células cancerosas que, em outras circunstâncias, seriam combatidas pelas defesas naturais do organismo. Até o momento, a doença tem sido fatal a partir do desenvolvimento dos sintomas.
Por meio do estudo das características da doença, os médicos-pesquisadores descobriram que o HIV poderia ser transmissível através de relações sexuais, pelo uso de agulhas contaminadas, a partir de mães infectadas, que transmitem a doença para os recém-nascidos via amamentação, ou ainda por transfusões de sangue – em resumo, pela transmissão de fluidos corporais de uma pessoa para outra. Desde 1985, o sangue usado para transfusões tem sido analisado de forma cuidadosa quanto à presença de HIV, e atualmente é bastante improvável que o vírus seja transmitido por esse meio.
Ao final de 2013, mais de 1 milhão de pessoas nos Estados Unidos estavam vivendo com Aids. Cerca de 50 mil norte- -americanos se tornaram infectados e 18 mil morrem a cada ano. Até 2011, os órgãos de saúde estimaram que 1,8 milhão de norte- -americanos tinha infecção por HIV. Em 2013, a Organização Mundial de Saúde (OMS) estimou que mais de 35 milhões de pessoas no mundo inteiro vivem com HIV/Aids e que 6 mil novas infecções ocorrem a cada dia.
Desde 1994, novos tratamentos têm estendido a expectativa de vida das pessoas com Aids. A maioria dos indivíduos com a doença faz parte do grupo de pessoas em idade sexualmente ativa. Devido ao fato de os parceiros heterossexuais portadores de Aids apresentarem alto risco de infecção, os órgãos de saúde pública estão preocupados com a possibilidade de que mais mulheres e grupos de minorias venham a contrair Aids. Em 1997, o diagnóstico do HIV começou a aumentar entre as mulheres e as minorias. Entre os casos de Aids relatados em 2009, 26% foram de mulheres e 49% de afro-americanos.
Nos meses e anos que virão, os cientistas continuarão a aplicar as técnicas microbiológicas para auxiliar a entender mais sobre a estrutura do mortal HIV, como ele é transmitido, como cresce nas células e causa a doença, como os medicamentos podem ser direcionados contra ele e se uma vacina eficiente pode ser desenvolvida. Os órgãos de saúde pública também têm como foco a prevenção da doença por meio da educação.
A Aids constitui uma das maiores ameaças à saúde deste século, mas não é a primeira grande epidemia de doença sexualmente transmissível. A sífilis também foi uma doença epidêmica fatal. Até 1941, a sífilis causou um número estimado de 14 mil mortes por ano nos Estados Unidos. Com poucos medicamentos disponíveis para o tratamento da sífilis e nenhuma vacina para preveni-la, os esforços para controlar a doença tinham como foco principal modificações dos comportamentos sexuais e o uso de preservativos. O desenvolvimento de medicamentos para o tratamento da sífilis contribui de forma significativa para impedir a disseminação da doença. De acordo com o Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC, de Centers for Disease Control and Prevention), os casos relatados de sífilis diminuíram de um alto índice de 575 mil, em 1943, para 5.979, em 2004, o número mais baixo de casos já registrado. Entretanto, desde então, o número de casos vem aumentando.
Assim como as técnicas microbiológicas ajudaram os cientistas no combate à sífilis e à varíola, elas ajudarão os cientistas a descobrirem as causas de novas doenças infecciosas emergentes no século XXI. Sem dúvida, surgirão novas doenças. Os vírus Ebola e o Influenzavirus são alguns exemplos de vírus que podem estar mudando suas habilidades para infectar diferentes espécies hospedeiras. Doenças infecciosas emergentes serão discutidas posteriormente no Capítulo 14, na página 405.
As doenças infecciosas podem reemergir devido à resistência a antibióticos (ver o quadro Foco clínico, no Capítulo 26,p. 756) e pela utilização dos microrganismos como armas biológicas. (Ver quadro Foco clínico, no Capítulo 23, p. 645.) O fracasso das medidas de saúde pública na contenção de infecções previamente controladas resultou em casos inesperados de tuberculose, coqueluche e difteria (ver Capítulo 24).
As doenças aqui mencionadas são causadas por vírus, bactérias, protozoários e príons* – tipos de microrganismos. Este livro introduz a você uma enorme variedade de organismos microscópicos. Ele apresenta como os microbiologistas utilizam técnicas e procedimentos específicos para estudar os micróbios que causam doenças como a Aids e a diarreia – e doenças que ainda precisam ser descobertas. Você também aprenderá como o corpo responde às infecções microbianas e como certos fármacos combatem as doenças provocadas por microrganismos. Por fim, você aprenderá sobre os papéis benéficos que os microrganismos apresentam no mundo que nos cerca.

Resumo para estudo


Os micróbios em nossas vidas
1. Os seres vivos muito pequenos para serem vistos a olho nu são chamados de microrganismos.
2. Os microrganismos são importantes para a manutenção do equilíbrio ecológico da Terra.
3. Alguns microrganismos vivem associados ao ser humano e a outros animais, sendo necessários para a manutenção de uma boa saúde.
4. Alguns microrganismos são utilizados para produzir alimentos e produtos químicos.
5. Alguns microrganismos causam doenças.

Nomeando e classificando os microrganismos 
Nomenclatura 
1. Em um sistema de nomenclatura descrito por Carolus Linnaeus (1735), cada organismo vivo é identificado por dois nomes.
2. Os dois nomes consistem em um gênero e um epíteto específico, sendo ambos escritos em itálico ou sublinhados. Tipos de microrganismos (pp. 3-5)
3. As bactérias são organismos unicelulares. Por não terem um núcleo, as células são descritas como procarióticas.
4. A maioria das bactérias tem parede celular de peptideoglicano; dividem-se por fissão binária e podem possuir flagelos.
5. As bactérias podem usar uma ampla variedade de compostos químicos para a sua nutrição.
6. As arqueias são células procarióticas, elas não possuem peptideoglicano em suas paredes celulares. 7. As arqueias incluem as metanogênicas, as halofílicas extremas e as termofílicas extremas.
8. Os fungos (cogumelos, bolores e leveduras) possuem células eucarióticas (células com núcleo verdadeiro). A maioria dos fungos é multicelular.
9. Os fungos obtêm os nutrientes pela absorção do material orgânico do ambiente.
10. Os protozoários são eucariotos unicelulares.
11. Os protozoários obtêm seus alimentos pela absorção ou ingestão através de estruturas especializadas.
12. As algas são eucariotos unicelulares ou multicelulares que obtêm seus alimentos através da fotossíntese.
13. As algas produzem oxigênio e carboidratos, que são utilizados por outros organismos.
14. Os vírus são entidades acelulares que são parasitos de células.
15. Os vírus consistem em um núcleo de ácido nucleico (DNA ou RNA) circundado por uma camada proteica. Um envelope pode circundar esta camada.
16. Os principais grupos de parasitos animais multicelulares são os vermes chatos e os redondos, coletivamente chamados de helmintos.
17. Os estágios microscópicos no ciclo de vida dos helmintos são identificados por procedimentos microbiológicos tradicionais. Classificação dos microrganismos (pp. 5-6)
18. Todos os organismos são classificados em Bacteria, Archaea e Eukarya. Eukarya inclui protistas, fungos, plantas e animais.

Uma breve história da microbiologia
 As primeiras observações
1. As observações de Hooke forneceram a base para o desenvolvimento da teoria celular, o conceito de que todos os seres vivos são compostos de células.
2. Anton van Leeuwenhoek, usando um microscópio simples, foi o primeiro a observar os microrganismos (1673).
O debate sobre a geração espontânea 
3. Até a metade da década de 1880, muitas pessoas acreditavam na geração espontânea, a ideia de que todos os organismos vivos poderiam surgir de matéria inanimada.
4. Francesco Redi demonstrou que larvas de insetos surgiam na carne em decomposição somente quando moscas depositavam seus ovos sobre a carne (1668).
5. John Needham declarou que os microrganismos poderiam surgir espontaneamente em caldo nutriente fervido (1745).
6. Lazzaro Spallanzani repetiu os experimentos de Needham e sugeriu que os resultados de Needham eram devido à entrada de microrganismos presentes no ar no caldo nutriente (1765).
7. Rudolf Virchow introduziu o conceito de biogênese: células vivas somente podem surgir a partir de células preexistentes (1858).
8. Louis Pasteur demonstrou que os microrganismos estão no ar e em todos os lugares e ofereceu provas para a teoria da biogênese (1861).
9. As descobertas de Pasteur levaram ao desenvolvimento das técnicas de assepsia, usadas nos laboratórios e nos procedimentos médicos para prevenir a contaminação por microrganismos.
A idade de ouro da microbiologia 
10. A ciência da microbiologia avançou rapidamente entre 1857 e 1914.
11. Pasteur descobriu que as leveduras fermentam açúcares a etanol e que as bactérias podem oxidar o álcool a ácido acético.
12. O processo de aquecimento, chamado de pasteurização, é usado para matar bactérias em algumas bebidas alcoólicas e no leite.
13. Agostino Bassi (1835) e Pasteur (1865) mostraram uma relação causal entre os microrganismos e as doenças.
14. Joseph Lister introduziu o uso do desinfetante para limpar feridas cirúrgicas, com o objetivo de controlar infecções em seres humanos (década de 1860).
15. Robert Koch provou que os microrganismos causam doenças. Ele usou uma sequência de procedimentos, hoje chamados de postulados de Koch (1876), para provar que um determinado microrganismo é o causador de uma doença específica.
16. Em 1798, Edward Jenner demonstrou que a inoculação com material proveniente de lesões da varíola bovina proporciona aos seres humanos imunidade contra a varíola.
17. Por volta de 1880, Pasteur descobriu que bactérias avirulentas podiam ser utilizadas como vacina para o cólera aviário.
18. As vacinas modernas são preparadas a partir de microrganismos vivos avirulentos ou patógenos mortos, de componentes isolados do patógeno e por técnicas de DNA recombinante.
O nascimento da quimioterapia moderna: os sonhos de uma “bala mágica” 
19. Quimioterapia é o tratamento químico de uma doença.
20. Dois tipos de agentes quimioterápicos são os medicamentos sintéticos (quimicamente preparados em laboratório) e os antibióticos (substâncias produzidas naturalmente por bactérias e fungos que inibem o crescimento de bactérias).
21. Paul Ehrlich introduziu um composto químico contendo arsênio, chamado de salvarsan, para tratar a sífilis (1910).
22. Alexander Fleming observou que os fungos Penicillium inibiam o crescimento de uma cultura bacteriana. Chamou o ingrediente ativo de penicilina (1928).
23. Os pesquisadores estão estudando o problema de microrganismos resistentes a fármacos.
Progressos recentes na microbiologia 
24. Bacteriologia é o estudo das bactérias, micologia é o estudo dos fungos e parasitologia é o estudo dos protozoários e vermes parasitos.
25. Os microbiologistas estão utilizando a genômica, que é o estudo de todos os genes de um organismo, para classificar bactérias, fungos e protozoários.
26. O estudo da Aids, a análise da ação dos interferons e o desenvolvimento de novas vacinas estão entre as pesquisas de maior interesse na imunologia.
27. As novas técnicas de biologia molecular e microscopia eletrônica têm fornecido novas ferramentas para o avanço do nosso conhecimento sobre virologia.
28. O desenvolvimento da tecnologia de DNA recombinante tem promovido avanços em todas as áreas da microbiologia.
Os micróbios e o bem-estar humano 
1. Os microrganismos degradam plantas e animais mortos reciclando os elementos químicos para serem utilizados pelas plantas e pelos animais vivos.
2. As bactérias são usadas para decompor a matéria orgânica presente em esgotos.
3. O processo de biorremediação é a utilização de bactérias para limpar resíduos tóxicos.
4. As bactérias que causam doenças em insetos estão sendo utilizadas como agentes de controle biológico de pragas. Os controles biológicos são específicos para determinadas pragas e não prejudicam o meio ambiente.
5. O uso de microrganismos na produção de alimentos e compostos químicos é chamado de biotecnologia.
6. Com o auxílio de técnicas de DNA recombinante, as bactérias podem produzir substâncias importantes, como proteínas, vacinas e enzimas.
7. Na terapia gênica, os vírus são usados para transportar substitutos para os genes defeituosos ou ausentes em células humanas.
8. Bactérias geneticamente modificadas são utilizadas na agricultura para proteger as plantas contra insetos e contra o frio, e para prolongar o tempo de prateleira de um produto.
Os micróbios e as doenças humanas 
1. Todas as pessoas possuem microrganismos na superfície e dentro do corpo. Eles constituem a microbiota ou flora normal.
2. A capacidade de uma determinada espécie de micróbio de causar doença e a resistência do organismo hospedeiro serão fatores importantes para determinar se uma pessoa contrairá ou não uma doença.
3. As comunidades bacterianas que formam as camadas limosas sobre superfícies são chamadas de biofilmes.
4. Uma doença infecciosa é aquela em que o patógeno invade um hospedeiro suscetível.
5. Uma doença infecciosa emergente (DIE) é uma doença nova ou modificada que apresenta um aumento em sua incidência em um passado recente ou um potencial para aumento em um futuro próximo.