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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

INFECÇÃO PELO HIV- Bases Científicas

 Em 1981, a vigilância epidemiológica dos EUA detectou aumentos significativos e absolutamente inesperados em certas doenças incomuns porém típicas de portadores de imunodepressão avançada, como a pneumonia pelo Pneumocystis jiroveci  (antigo P. Carinii) e o sarcoma de Kaposi. Chamava a atenção o fato de que os acometidos eram homossexuais masculinos até então hígidos... Isso alarmou a sociedade (e fomentou o preconceito) fazendo crer que se tratava de uma espécie de "cancêr gay" ou GRID (Gay-Related Immune Deficiency).
 No entanto, em pouco tempo novos casos daquelas condições "esquisitas" também foram relatados em usuários de drogas ilícitas injetáveis - tanto homens quanto mulheres - bem como em receptores de hemoderivados (ex.: hemofílicos), mulheres que fizeram sexo com homens doentes e crianças nascidas dessas mulheres. Uma vez demonstrado que o problema não era uma exclusividade dos gays, em 1982 o CDC mudou a denominação oficial de "GRID" para AIDS ( Acquired Immune Deficiency Sindrome).
 Mas somente em 1983 o vírus da imunodeficiência humana (HIV) foi isolado e em 1984 sua relação causal com a AIDS estabelecida. Em 1985 surgiu a primeira geração de testes diagnósticos, permitindo a surpreendente constatação de que o HIV - naquela altura - já havia disseminado por todo o globo terrestre, numa verdadeira pandemia da infecção.

Os bastidores da descoberta do HIV 

 Dois grupos isolaram o HIV de forma quase que simultânea: a equipe liderada pelo Dr. Robert Gallo (EUA) e a do Dr. Luc Montagnier (França). Acontece que apenas recentemente a disputa pelo mérito dessa descoberta foi apaziguada... Os dois cientistas (que antes colaboravam um com o outro) passaram a brigar pelo título de "descobridor do HIV"! A questão gerou tanta controvérsia e desconforto entre os dois países que em 1990 o National Institutes of Health patrocinou uma investigação formal sobre o caso. Análises de amostras virais arquivadas deixaram claro que o vírus identificado por Robert Gallo veio diretamente do laboratório de Luc Montagnier! Mas a conclusão foi de que não houve "roubo": o vírus isolado pelo Dr. Gallo havia contaminado uma cultura de células enviadas ao seu laboratório pelo Dr. Montagnier... O fato é que apesar de se ter confirmado que quem primeiro isolou o HIV foi o francês, ficou claro também que quem estabeleceu o nexo causal com a AIDS foi o americano e, em 2002, ambos publicaram um artigo na Nature onde cada um enaltece o papel do outro, declarando-se coautores da descoberta. É digno de nota, todavia, que a comissão julgadora do prêmio Nobel não compartilhou desse entendimento: o único agraciado com o Nobel de Medicina pela descoberta do HIV foi Luc Montagnier, que em 2008 dividiu o prêmio com o Dr. Harald zur Hausen (Alemanha), descobridor da relação causal entre o HPV e o câncer de colo uterino...

Virologia

 O HIV (FIGURA 1) é um retrovírus. O que isso significa ? Significa que ele é um vírus de RNA que para infectar o ser humano necessita ter seu material genético transcrito de forma "reversa" em DNA, o único que pode se integrar ao genoma e ditar a síntese das proteínas virais utilizando a maquinaria enzimática do hospedeiro.
 A enzima transcriptase reversa (uma DNA-polimerase) é essencial para a replicação do HIV, pois traduz o RNA viral em DNA dupla-fita. Sem ela, o vírus não conseguiria infectar o homem.
 Morfologicamente, o vírion do HIV (FIGURA 2) é uma partícula icosaédrica de cuja superfície despontam espículas formadas por glicoproteínas (gp 120) e gp 41). Quando o vírus brota da célula infectada ela carreia consigo um envoltório lipoprotéico roubado de sua membrana e, nesse "envelope externo", além das glicoproteínas virais encontram-se moléculas oriundas do hospedeiro, como o complexo principal de histocompatibilidade (MHC). O HIV contém ainda um capsídeo (envelope interno) composto pelo antígeno p24. Dentro do capsídeo estão encerrados o genoma viral (RNA) e enzimas como a transcriptase reversa.
FIGURA 1