domingo, 27 de agosto de 2017

Propriedades e Visão Geral das Respostas Imunes

Fonte: Livro Imunologia Celular e Molecular - 8ª Ed.

Autores: Abul Lichtman, Andrew Abbas

O termo imunidade é derivado da palavra latina imunitas, que se refere à proteção contra processos legais oferecida aos senadores romanos durante seus mandatos. Historicamente, a imunidade significa proteção contra doenças e, mais especificamente, doenças infecciosas. As células e moléculas responsáveis pela imunidade constituem o sistema imune, e sua resposta coletiva e coordenada à entrada de substâncias estranhas é denominada resposta imune.
A função fisiológica do sistema imune é a defesa contra microrganismos infecciosos. Entretanto, mesmo substâncias estranhas não infecciosas podem elicitar respostas imunes. Além disso, mecanismos que normalmente protegem os indivíduos contra uma infecção e eliminam substâncias estranhas também são capazes de causar lesão tecidual e doenças em algumas situações. Portanto, uma definição mais inclusiva da resposta imune é uma reação aos componentes de microrganismos, bem como a macromoléculas, tais como proteínas e polissacarídios, e pequenos agentes químicos que são reconhecidos como estranhos, independentemente da consequência fisiológica ou patológica de tal reação. Sob certas situações, mesmo moléculas próprias podem elicitar respostas imunes (as chamadas doenças autoimunes). A imunologia é o estudo das respostas imunes em seu sentido mais amplo e de eventos celulares e moleculares que ocorrem após um organismo encontrar microrganismos e outras macromoléculas estranhas. Os historiadores frequentemente creditam a Thucydides, no século 5 a.C., em Atenas, como tendo sido a primeira pessoa a mencionar a imunidade contra uma infecção que ele denominou praga (mas que provavelmente não era a peste bubônica reconhecida atualmente). O conceito de imunidade protetora pode ter existido muito antes, como sugerido pelo antigo costume chinês de tornar as crianças resistentes à varíola após fazêlas inalar pó preparado a partir de lesões cutâneas de pacientes que se recuperaram da doença. A imunologia, em sua forma moderna, é uma ciência experimental na qual explicações do fenômeno imunológico são baseadas em observações experimentais e as conclusões são obtidas a partir delas. A evolução da imunologia como uma disciplina experimental depende da nossa habilidade em manipular a função do sistema imune sob condições controladas. Historicamente, o primeiro exemplo claro desta manipulação, e o que permanece dentre o mais dramático já registrado, foi a vacinação bem-sucedida de Edward Jenner contra a varíola. Jenner, um médico inglês, constatou que vacas leiteiras que tinham se recuperado da varíola bovina nunca mais contraíam a forma mais grave da doença. Com base nesta observação, ele injetou o material de uma pústula de varíola bovina no braço de um menino de 8 anos de idade. Quando este menino foi posteriormente inoculado com a varíola, a doença não se desenvolveu. O tratado de Jenner, um marco na vacinação (do latim vaccinus, ou a partir de vacas) foi publicado em 1798. Isso levou à aceitação geral deste método para a indução da imunidade contra doenças infecciosas, e a vacinação permanece o método mais efetivo para a prevenção de infecções (Tabela 1-1). Um testemunho eloquente da importância da imunologia foi o anúncio pela Organização Mundial da Saúde, em 1980, de que a varíola era a primeira doença a ser erradicada em todo o mundo por meio de um programa de vacinação.

Tabela 1-1
Efetividade das Vacinas para Algumas Doenças Infecciosas Comuns


Esta tabela ilustra a impressionante redução na incidência de doenças infecciosas selecionadas nos Estados Unidos para
cada vacina efetiva que foi desenvolvida.
Dados de Orenstein WA, Hinman AR, Bart KJ, Hadler SC: Immunization. Em Mandell GL, Bennett JE, Dolin R (eds.):
Principles and practices of infectious diseases, 4th ed. New York, 1995, Churchill Livingstone; e Morbidity and Mortality
Weekly Report 58:1458–1469, 2010.

Desde a década de 1960, existe uma notável transformação em nossa compreensão sobre o sistema imune e suas funções. Avanços nas técnicas de cultura celular (incluindo a produção de anticorpo monoclonal), imuno-histoquímica, metodologia de DNA recombinante, cristalografia de raios X e criação de animais geneticamente alterados (especialmente camundongos transgênicos e knockout) mudaram a imunologia de uma ciência largamente descritiva em uma na qual fenômenos imunes diversos podem ser explicados em termos estruturais e bioquímicos. 

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