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segunda-feira, 6 de junho de 2016

SISTEMA NERVOSO



 O sistema nervoso permite que o corpo reaja a modificações contínuas dos ambientes interno e externo. Também controla e integra as várias atividades do corpo, como a circulação e a respiração. Para fins descritivos, o sistema nervoso é dividido:

• Estruturalmente, em sistema nervoso central* (SNC), formado pelo encéfalo e medula espinal, e sistema nervoso periférico* (SNP), o restante do sistema nervoso que não pertence ao SNC
• Funcionalmente, em divisão somática do sistema nervoso (DSSN) e divisão autônoma do sistema nervoso (DASN).
O tecido nervoso tem dois tipos principais de células: neurônios (células nervosas) e neuróglia (células gliais), que sustentam os neurônios.
• Os neurônios são as unidades estruturais e funcionais do sistema nervoso especializadas para comunicação rápida (Figuras I.28 e I.29). Um neurônio é formado por um corpo celular com prolongamentos denominados dendritos e um axônio, que conduzem os impulsos que entram e saem do corpo celular, respectivamente. A mielina, camadas de lipídios e substâncias proteicas formam uma bainha de mielina ao redor de alguns axônios, propiciando grande aumento da velocidade de condução do impulso. A maioria dos neurônios do sistema nervoso (e do sistema nervoso periférico, em especial) pertence a dois tipos (Figura I.28):

1. Os neurônios motores multipolares têm dois ou mais dendritos e um axônio, que pode ter um ou mais ramos colaterais. São o tipo mais comum de neurônio no sistema nervoso (SNC e SNP). Todos os neurônios motores que controlam o músculo esquelético e aqueles que formam a DASN são neurônios multipolares
2. Neurônios sensitivos pseudounipolares têm um prolongamento curto, aparentemente único (mas, na verdade, duplo) que se estende a partir do corpo celular. Esse processo comum divide-se em um prolongamento periférico, que conduz impulsos do órgão receptor (tato, dor ou sensores térmicos na pele, por exemplo) em direção ao corpo celular, e um prolongamento central que vai do corpo celular até o SNC. Os corpos celulares dos neurônios pseudounipolares estão situados fora do SNC nos gânglios sensitivos e, portanto, fazem parte do SNP.
A comunicação entre os neurônios é feita nos pontos de contato entre eles, as sinapses (Figura I.29). A comunicação ocorre por meio de neurotransmissores, substâncias químicas liberadas ou secretadas por um neurônio, que podem excitar ou inibir outro neurônio, continuando ou interrompendo a transmissão de impulsos ou a resposta a eles.

• A neuróglia (células gliais ou glia), aproximadamente cinco vezes mais abundante que os neurônios, é formada por células não neuronais, não excitáveis, que formam um importante componente do tecido nervoso, sustentando, isolando e nutrindo os neurônios. No SNC, a neuróglia inclui oligodendróglia, astrócitos, células ependimárias e micróglia (pequenas células gliais). No SNP, a neuróglia inclui células-satélite ao redor dos neurônios nos gânglios espinais (raiz posterior) e autônomos e as células do neurolema (de Schwann) (Figuras 1.28 e 1.29). 

Figura I.28 Neurônios. A figura mostra os tipos mais comuns de neurônios. A. Neurônios motores multipolares. Todos os neurônios motores que controlam os músculos esqueléticos e aqueles que formam a DASN são multipolares. B. Com exceção de alguns sentidos especiais (p. ex., olfato e visão), todos os neurônios sensitivos do SNP são neurônios pseudounipolares com corpos celulares situados em gânglios sensitivos.



Figura I.29 Sinapse de neurônios motores multipolares. Um neurônio influencia outros nas sinapses. Detalhe: Estrutura detalhada de uma sinapse axodendrítica. Os neurotransmissores difundem-se através da fenda sináptica entre as duas células e ligam-se aos receptores.




Parte central do sistema nervoso

 A parte central do sistema nervoso ou sistema nervoso central (SNC) é formada pelo encéfalo e pela medula espinal. Os principais papéis do SNC são integrar e coordenar os sinais neurais que chegam e saem e realizar funções mentais superiores, como o raciocínio e o aprendizado. 

 O núcleo é um conjunto de corpos de células nervosas no SNC. Um feixe de fibras nervosas (axônios) no SNC que une núcleos vizinhos ou distantes do córtex cerebral é um trato. O encéfalo e a medula espinal são formados por substância cinzenta e substância branca. Os corpos dos neurônios situam-se na parte interna e constituem a substância cinzenta; os sistemas de tratos de fibras interconectantes formam a substância branca. Em cortes transversais da medula espinal, a substância cinzenta apresenta-se como uma área com formato aproximado de uma letra H incrustada em uma matriz de substância branca. Os braços do H são os cornos; portanto, existem cornos cinzentos posteriores (dorsais) e anteriores (ventrais) direito e esquerdo. 

Três camadas membranosas — pia-máter, aracnoide-máter e dura-máter — formam, juntas, as meninges. As meninges e o líquido cerebrospinal (LCS) circundam e protegem o SNC. O encéfalo e a medula espinal são revestidos em sua superfície externa pela meninge mais interna, um revestimento delicado e transparente, a pia-máter. O LCS está localizado entre a pia- máter e a aracnoide-máter. Externamente à pia-máter e à aracnoide-máter está a dura-máter espessa e rígida. A dura-máter do encéfalo está relacionada com a face interna do osso do neurocrânio adjacente; a dura-máter da medula espinal é separada do osso adjacente da coluna vertebral por um espaço extradural cheio de gordura.

Parte periférica do sistema nervoso
:
A parte periféria do sistema nervoso ou sistema nervoso periférico (SNP) é formada por fibras nervosas e corpos celulares fora do SNC que conduzem impulsos que chegam ou saem do sistema nervoso central (Figura I.30). O sistema nervoso periférico é organizado em nervos que unem a parte central às estruturas periféricas.
Uma fibra nervosa é formada por um axônio, seu neurolema, e circunda o tecido conjuntivo endoneural (Figura I.32). O neurolema é formado pelas membranas celulares das células de Schwann que circundam imediatamente o axônio, separando- o de outros axônios. No sistema nervoso periférico o neurolema pode assumir duas formas, criando duas classes de fibras nervosas:
1. O neurolema das fibras nervosas mielínicas é formado pelas células de Schwann específicas de um axônio, organizadas em uma série contínua de células de revestimento que formam a mielina.
2. O neurolema das fibras nervosas amielínicas é composto de células de Schwann que não formam uma série aparente; há vários axônios incorporados separadamente ao citoplasma de cada célula. Essas células de Schwann não produzem mielina. A maioria das fibras nos nervos cutâneos (nervos responsáveis pela sensibilidade cutânea) é amielínica.

Um nervo consiste em:

• Um feixe de fibras nervosas fora do SNC (ou um “feixe de fibras reunidas”, ou fascículos, no caso de um nervo maior).
• Revestimento de tecido conjuntivo que circunda e une as fibras nervosas e os fascículos e
• Vasos sanguíneos (vasa nervorum) que nutrem as fibras nervosas e seus revestimentos (Figura I.33).

Os nervos são muito fortes e resilientes, porque as fibras nervosas são sustentadas e protegidas por três revestimentos de tecido conjuntivo:
1. Endoneuro, tecido conjuntivo delicado que circunda imediatamente as células do neurolema e os axônios.
2. Perineuro, uma camada de tecido conjuntivo denso que envolve um fascículo de fibras nervosas periféricas, proporcionando uma barreira efetiva contra a penetração das fibras nervosas por substâncias estranhas.
3. Epineuro, uma bainha de tecido conjuntivo espesso que circunda e encerra um feixe de fascículos, formando o revestimento mais externo do nervo; inclui tecido adiposo, vasos sanguíneos e linfáticos.
.
Os nervos são organizados como um cabo telefônico: os axônios assemelham-se a fios individuais isolados pelo neurolema e endoneuro; os fios isolados são reunidos pelo perineuro e os feixes são circundados pelo epineuro, que forma o revestimento externo do cabo (Figura I.33). É importante distinguir entre fibras nervosas e nervos, que às vezes são representados em diagramas como sendo uma única e mesma coisa. 

Figura I.30 Organização básica do sistema nervoso. O SNC é formado pelo encéfalo e pela medula espinal. O SNP é formado pelos nervos e gânglios. Os nervos são cranianos ou espinais (segmentares), ou derivados deles. Exceto na região cervical, cada nervo espinal tem a mesma designação alfanumérica que a vértebra que forma o limite superior de sua saída da coluna vertebral. Na região cervical, cada nervo espinal tem a mesma designação alfanumérica que a vértebra que forma seu limite inferior. O nervo espinal C8 sai entre as vértebras C VII e T I. As intumescências cervical e lombossacral da medula espinal têm relação com a inervação dos membros.


Figura I.31 Medula espinal e meninges. A dura-máter e a aracnoide-máter foram seccionadas e rebatidas para mostrar as raízes posteriores e anteriores e o ligamento denticulado (espessamento bilateral, longitudinal, entalhado da pia-máter que fixa a medula espinal no centro do canal vertebral). A medula espinal é seccionada para mostrar seus cornos de substância cinzenta. As meninges estendem-se ao longo das raízes nervosas e se fundem ao epineuro no ponto onde as raízes posteriores e anteriores se unem, formando as bainhas radiculares durais que revestem os gânglios sensitivos (raiz posterior).


Um conjunto de corpos de células nervosas fora do SNC é um gânglio. Existem gânglios motores (autônomos) e sensitivos.


TIPOS DE NERVOS

 O SNP é contínuo, do ponto de vista anatômico e operacional, com o SNC (Figura I.30). Suas fibras aferentes (sensitivas) conduzem impulsos nervosos dos órgãos dos sentidos (p. ex., os olhos) e dos receptores sensitivos em várias partes do corpo (p. ex., na pele) para o SNC. Suas fibras eferentes (motoras) conduzem impulsos nervosos do SNC para os órgãos efetores (músculos e glândulas).

Figura I.32 Fibras nervosas periféricas mielínicas e amielínicas. As fibras nervosas mielínicas têm uma bainha formada por uma série contínua de células do neurolema (Schwann) que circundam o axônio e formam uma série de segmentos de mielina. Várias fibras nervosas amielínicas são individualmente envolvidas por uma única célula do neurolema que não produz mielina.



Os nervos são cranianos ou espinais, ou derivados deles. 
• Os nervos cranianos saem da cavidade craniana através de forames no crânio e são identificados por um nome descritivo (p. ex., “nervo troclear”) ou por um algarismo romano (p. ex., “NC IV”). Apenas 11 dos 12 pares de nervos cranianos originam-se no encéfalo; o outro par (NC XI) origina-se na parte superior da medula espinal .
• Os nervos espinais (segmentares) saem da coluna vertebral através de forames intervertebrais (Figura I.30). Os nervos espinais originam-se em pares bilaterais de um segmento específico da medula espinal. Todos os 31 segmentos da medula espinal e os 31 pares de nervos que se originam deles são identificados por uma letra e um número (p. ex., “T4”) que designam a região da medula e sua ordem superior-inferior (C, cervical; T, torácica; L, lombar; S, sacral; Co, coccígea). 
Nervos espinais. Inicialmente, os nervos espinais originam-se na medula espinal como radículas (um detalhe que costuma ser omitido nos diagramas para simplificar); as radículas convergem para formar duas raízes nervosas (Figura I.34): 
1. Uma raiz anterior (ventral), formada por fibras motoras (eferentes) que saem dos corpos das células nervosas no corno anterior da substância cinzenta da medula espinal para órgãos efetores situados na periferia.
Figura I.33 Organização e formação da bainha nas fibras nervosas mielínicas. Os nervos são formados por feixes de fibras nervosas, as camadas de tecido conjuntivo que os unem e os vasos sanguíneos (vasa nervorum) que os irrigam. Todos os nervos, exceto os menores, estão organizados em feixes denominados fascículos.





2. Uma raiz posterior (dorsal), formada por fibras sensitivas (aferentes) dos corpos celulares no gânglio (sensitivo) espinal ou gânglio da raiz posterior (dorsal) (geralmente abreviado como “GRD”) que se estendem em direção à periferia até terminações sensitivas e centralmente até o corno posterior de substância cinzenta da medula espinal. 
As raízes nervosas posteriores e anteriores se unem, dentro ou imediatamente proximais ao forame intervertebral, para formar um nervo espinal misto (motor e sensitivo), que se divide imediatamente em dois ramos: um ramo posterior (dorsal) e um ramo anterior (ventral). Como ramos do nervo espinal misto, os ramos posterior e anterior conduzem fibras motoras e sensitivas, bem como seus ramos subsequentes. Os termos nervo motor e nervo sensitivo são quase sempre relativos, referindo-se à maioria dos tipos de fibras conduzidas por aquele nervo. Os nervos que suprem músculos do tronco ou dos membros (nervos motores) também contêm cerca de 40% de fibras sensitivas que conduzem informações álgicas e proprioceptivas. Por outro lado, os nervos cutâneos (sensitivos) contêm fibras motoras que suprem as glândulas sudoríferas e o músculo liso dos vasos sanguíneos e folículos pilosos. 
A área unilateral de pele inervada pelas fibras sensitivas de um único nervo espinal é chamada de dermátomo; a massa muscular unilateral inervada pelas fibras conduzidas por um único nervo espinal é um miótomo (Figura I.35). A partir de estudos clínicos de lesões das raízes posteriores ou nervos espinais, foram elaborados mapas de dermátomos para indicar o padrão comum de inervação cutânea por nervos espinais específicos (Figura I.36). No entanto, a lesão de apenas uma raiz posterior ou nervo espinal raramente resultaria em dormência na área demarcada para aquele nervo nesses mapas porque as fibras conduzidas por nervos espinais adjacentes se superpõem quase completamente enquanto são distribuídas para a pele, proporcionando um tipo de cobertura dupla. Assim, as linhas que indicam os dermátomos nos mapas seriam mais bem representadas por gradações de cor. Em geral, é preciso que haja interrupção de pelo menos dois nervos espinais (ou raízes posteriores) adjacentes para produzir uma área definida de dormência.

Figura I.34 Substância cinzenta da medula espinal, raízes espinais e nervos espinais. As meninges são seccionadas e rebatidas para mostrar a substância cinzenta em formato de H na medula espinal e as radículas e raízes posteriores e anteriores de dois nervos espinais. As radículas posteriores e anteriores entram e saem pelos cornos cinzentos posterior e anterior, respectivamente. As raízes nervosas posteriores e anteriores unem-se distalmente ao gânglio sensitivo para formar um nervo espinal misto, que se divide imediatamente nos ramos posterior e anterior.


Figura I.35 Dermátomos e miótomos. Esquema representativo de um dermátomo (a área unilateral de pele) e um miótomo (a porção unilateral de músculo esquelético) inervados por um único nervo espinal. 



Figura I.36 Dermátomos (inervação cutânea segmentar). Os mapas de dermátomos do corpo baseiam-se na reunião de achados clínicos após lesões dos nervos espinais. O mapa toma como base os estudos de Foerster (1933) e reflete a distribuição anatômica (real) ou a inervação segmentar e a experiência clínica. Outro mapa popular, porém mais esquemático, é o de Keegan e Garrett (1948), que é atraente em razão de seu padrão regular, extrapolado com mais facilidade. O nervo espinal C1 não tem um componente aferente significativo e não supre a pele; portanto, não há representação de dermátomo C1. Observe que, no mapa de Foerster, C5–T1 e L3–S1 estão quase totalmente distribuídos nos membros (isto é, têm pouca ou nenhuma representação no tronco).





Quando emergem dos forames intervertebrais, os nervos espinais são divididos em dois ramos (Figura I.37):
1. Os ramos posteriores (primários) dos nervos espinais enviam fibras nervosas para as articulações sinoviais da coluna vertebral, músculos profundos do dorso e a pele sobrejacente em um padrão segmentar. Como regra geral, os ramos posteriores permanecem separados uns dos outros (não se fundem para formar grandes plexos nervosos somáticos) 

Figura I.37 Distribuição dos nervos espinais. Pouco depois de serem formados pela fusão das raízes posterior e anterior, os nervos espinais dividem-se em ramos anterior e posterior (primários). Os ramos posteriores são distribuídos para as articulações sinoviais da coluna vertebral, músculos profundos do dorso e a pele sobrejacente. A parede anterolateral do corpo remanescente, inclusive os membros, é suprida por ramos anteriores. Os ramos posteriores e os ramos anteriores dos nervos espinais T2–T12 geralmente não se fundem aos ramos de nervos espinais adjacentes para formar plexos. 


2. Os ramos anteriores (primários) dos nervos espinais enviam fibras nervosas para a área muito maior remanescente, formada pelas regiões anterior e lateral do tronco e pelos membros superiores e inferiores. Os ramos anteriores distribuídos exclusivamente para o tronco costumam permanecer separados uns dos outros, também inervando os músculos e a pele em um padrão segmentar (Figuras I.38 e I.39). Entretanto, principalmente em relação à inervação dos membros, a maioria dos ramos anteriores funde-se com um ou mais ramos anteriores adjacentes, formando plexos nervosos (redes) somáticos nos quais suas fibras se misturam e dos quais emerge um novo grupo de nervos periféricos multissegmentares (Figuras I.39 e I.40A e B). Os ramos anteriores dos nervos espinais que participam da formação do plexo enviam fibras para vários nervos periféricos originados no plexo (Figura I.40A); por outro lado, a maioria dos nervos periféricos originados no plexo contém fibras de vários nervos espinais (Figura I.40B). 
Embora os nervos espinais percam sua identidade quando se dividem e se fundem no plexo, as fibras originadas de um segmento específico da medula e conduzidas por um único nervo espinal são basicamente distribuídas para um dermátomo segmentar, embora possam alcançá-lo através de um nervo periférico multissegmentar originado no plexo e que também conduza fibras para todos os dermátomos ou para partes de outros dermátomos adjacentes (Figura I.40C). 

Figura I.38 Distribuição dos nervos cutâneos periféricos. Os mapas da distribuição cutânea dos nervos periféricos baseiam- se na dissecção e são apoiados pelos achados clínicos.




 Assim, é importante distinguir entre a distribuição das fibras conduzidas por nervos espinais (distribuição ou inervação segmentar — isto é, dermátomos e miótomos identificados por uma letra e um número, como “T4”) e das fibras conduzidas por ramos de um plexo (inervação ou distribuição por nervo periférico, identificados com os nomes de nervos periféricos, como “o nervo mediano”) (Figuras I.36 e I.38). O mapeamento da inervação segmentar (dermátomos, determinado pela experiência clínica) e o mapeamento da distribuição dos nervos periféricos (determinado por dissecção dos ramos distais de um nervo nominado) produzem mapas completamente diferentes, exceto pela maior parte do tronco onde, na ausência de formação do plexo, as distribuições segmentar e periférica são iguais. A superposição na distribuição cutânea das fibras nervosas conduzidas por nervos espinais adjacentes também ocorre na distribuição cutânea de fibras nervosas conduzidas por nervos periféricos adjacentes.
Nervos cranianos. Quando se originam do SNC, alguns nervos cranianos conduzem apenas fibras sensitivas, outros têm apenas fibras motoras e ainda outros têm uma mistura dos dois tipos de fibras (Figura I.41). Há comunicação entre os nervos cranianos e entre os nervos cranianos e os nervos (espinais) cervicais superiores; assim, um nervo que inicialmente conduz apenas fibras motoras pode receber fibras sensitivas distalmente em seu trajeto e vice-versa. Com exceção dos dois primeiros (associados ao olfato e à visão), os nervos cranianos que conduzem fibras sensitivas para o encéfalo têm gânglios sensitivos (semelhantes aos gânglios espinais ou gânglios da raiz posterior), onde estão situados os corpos celulares das fibras pseudounipolares. Embora, por definição, o termo dermátomo se aplique apenas aos nervos espinais, é possível identificar e mapear áreas de pele semelhantes supridas por nervos cranianos isolados. Ao contrário do que ocorre nos dermátomos, porém, há pouca superposição na inervação das áreas de pele supridas por nervos cranianos.
Figura I.39 Ramos anteriores dos nervos espinais e sua participação na formação do plexo. Embora os ramos posteriores (não mostrados) geralmente permaneçam separados e sigam um padrão de distribuição segmentar distinto, a maioria dos ramos anteriores (20 dos 31 pares) participa da formação de plexos, responsáveis principalmente pela inervação dos membros. No entanto, os ramos anteriores distribuídos apenas para o tronco geralmente permanecem separados e seguem distribuição segmentar semelhante à distribuição dos ramos posteriores.



FIBRAS SOMÁTICAS E VISCERAIS

Os tipos de fibras conduzidas por nervos cranianos ou espinais são (Figura I.41): 

• Fibras somáticas 

Fibras sensitivas gerais (fibras aferentes somáticas gerais [ASG]) transmitem sensações do corpo para o SNC; podem ser sensações exteroceptivas da pele (dor, temperatura, tato e pressão) ou dor e sensações proprioceptivas dos músculos, tendões e articulações. As sensações proprioceptivas geralmente são subconscientes, informando a posição da articulação e a tensão dos tendões e músculos. Essas informações são associadas a estímulos aferentes do aparelho vestibular da orelha interna, resultando em consciência da orientação do corpo e dos membros no espaço, independentemente de informações visuais .
Fibras motoras somáticas (fibras eferentes somáticas gerais [ESG]) transmitem impulsos para os músculos esqueléticos (voluntários) 
• Fibras viscerais 
Fibras sensitivas viscerais (fibras aferentes viscerais gerais [AVG]) transmitem dor ou sensações reflexas viscerais subconscientes (informações sobre distensão, gases sanguíneos e níveis de pressão arterial, por exemplo) de órgãos ocos e vasos sanguíneos para o SNC 
Fibras motoras viscerais (fibras eferentes viscerais gerais [EVG]) transmitem impulsos para os músculos lisos (involuntários) e tecidos glandulares. Dois tipos de fibras, pré-sinápticas e pós-sinápticas, atuam em conjunto para conduzir impulsos do SNC para o músculo liso ou as glândulas. 

Os dois tipos de fibras sensitivas — sensitivas viscerais e sensitivas gerais — são processos de neurônios pseudounipolares cujos corpos celulares estão localizados fora do SNC em gânglios sensitivos espinais ou cranianos (Figuras I.41 e I.42). As fibras motoras dos nervos são axônios de neurônios multipolares. Os corpos celulares dos neurônios motores somáticos e motores viscerais pré-sinápticos estão localizados na substância cinzenta da medula espinal. Os corpos celulares dos neurônios motores pós-sinápticos estão localizados fora do SNC em gânglios autônomos. 

Além dos tipos de fibras citados, alguns nervos cranianos também conduzem fibras sensitivas especiais para os sentidos especiais (olfato, visão, audição, equilíbrio e paladar). Algumas fibras motoras conduzidas por nervos cranianos para o músculo estriado foram tradicionalmente classificadas como “viscerais especiais”, tomando como base a origem embriológica/filogenética de determinados músculos da cabeça e pescoço; entretanto, como essa designação causa confusão e não é aplicada clinicamente, o termo não será usado aqui. Às vezes essas fibras são denominadas motoras branquiais, referindo-se ao tecido muscular derivado dos arcos faríngeos no embrião.

Figura I.40 Formação do plexo. Ramos anteriores adjacentes fundem-se para formar plexos nos quais suas fibras são trocadas e redistribuídas, formando um novo conjunto de nervos periféricos multissegmentares (nominados). A. As fibras de um único nervo espinal que entra no plexo são distribuídas para vários ramos do plexo. B. Os nervos periféricos derivados do plexo contêm fibras de vários nervos espinais. C. Embora os nervos segmentares se fundam e percam sua identidade quando a formação do plexo resulta em nervos periféricos multissegmentares, o padrão segmentar (de dermátomos) da distribuição das fibras nervosas persiste.



Figura I.41 Inervação somática e visceral através dos nervos espinais, esplâncnicos e cranianos. O sistema motor somático permite o movimento voluntário e reflexo causado por contração dos músculos esqueléticos, como ocorre quando uma pessoa toca um ferro quente.




SISTEMAS NERVOSOS CENTRAL E PERIFÉRICO 
Lesão do SNC
Na maioria dos casos de lesão do encéfalo ou da medula espinal, não há recuperação dos axônios danificados. Os cotos proximais começam a se regenerar, enviando brotos para a área acometida; entretanto, esse crescimento é bloqueado pela proliferação de astrócitos no local da lesão, e os brotos axonais logo se retraem. Consequentemente, a destruição de um trato no SNC causa incapacidade permanente.
Rizotomia
A s raízes posteriores e anteriores são os únicos locais onde há separação entre as fibras motoras e sensitivas de um nervo espinal. Portanto, apenas nesses locais o cirurgião pode fazer a secção seletiva de um elemento funcional para alívio da dor intratável ou da paralisia espástica (rizotomia).
Degeneração neural e isquemia dos nervos
Não há proliferação de neurônios no sistema nervoso do adulto, com exceção daqueles relacionados ao olfato no epitélio olfatório. Portanto, não há substituição de neurônios destruídos por doença ou traumatismo (Hutchins et al.,2002). Quando os nervos periféricos são distendidos, esmagados ou seccionados, os axônios degeneram, principalmente na parte distal à lesão, porque dependem dos corpos celulares para sobreviver. Quando há lesão dos axônios, mas os corpos celulares estão intactos, pode haver regeneração e retorno da função. A chance de sobrevivência é maior quando um nervo é comprimido. A compressão de um nervo costuma causar parestesia, a sensação de formigamento que ocorre, por exemplo, quando uma pessoa permanece sentada com as pernas cruzadas durante muito tempo.
Uma lesão por esmagamento do nervo danifica ou destrói os axônios distais ao local da lesão; entretanto, os corpos celulares dos neurônios geralmente sobrevivem, e o revestimento de tecido conjuntivo do nervo permanece intacto. Não é necessário reparo cirúrgico nesse tipo de lesão neural, pois o revestimento de tecido conjuntivo íntegro guia os axônios em crescimento até seus destinos. A regeneração é menos provável quando há secção do nervo. Há brotamento nas extremidades proximais dos axônios, mas os axônios em crescimento podem não chegar a seus alvos distais. Uma lesão por secção do nervo requer intervenção cirúrgica porque a regeneração do axônio exige a aposição das extremidades seccionadas por suturas do epineuro. Os feixes nervosos individuais são realinhados da forma mais precisa possível. A degeneração 
anterógrada (walleriana) é a degeneração de axônios que são separados de seus corpos celulares. O processo degenerativo inclui o axônio e sua bainha de mielina, embora essa bainha não faça parte do neurônio lesado.
O comprometimento do suprimento sanguíneo de um nervo por longo período pela compressão dos vasos dos nervos (vasa nervorum) (Figura I.33) também pode causar degeneração do nervo. A lesão causada pela isquemia (suprimento sanguíneo inadequado) prolongada de um nervo pode não ser menos grave do que aquela causada por esmagamento ou até mesmo secção do nervo. A “síndrome do sábado à noite”, assim denominada porque ocorre em um indivíduo embriagado que “cai inconsciente” com um membro sobre o braço de uma cadeira ou a beira da cama, é um exemplo de parestesia mais grave, muitas vezes permanente. Esse distúrbio também pode ser causado pelo uso prolongado de um torniquete durante um procedimento cirúrgico. Se a isquemia não for muito prolongada, ocorre dormência ou parestesia temporária. A parestesia transitória é conhecida por qualquer pessoa que tenha recebido uma injeção de anestésico para tratamento dentário.

Pontos-chave


PARTES CENTRAL E PERIFÉRICA DO SISTEMA NERVOSO
O sistema nervoso pode ser funcionalmente dividido em uma parte central (SNC), que consiste no encéfalo e na medula espinal, e uma parte periférica (SNP), formada pelas fibras nervosas e seus corpos celulares situados fora do SNC. ♦ Os neurônios são as unidades funcionais do sistema nervoso. São formados por um corpo celular, dendritos e axônios. ♦ Os axônios neuronais (fibras nervosas) transmitem impulsos para outros neurônios ou para um órgão ou músculo-alvo ou, no caso de nervos sensitivos, transmitem impulsos dos órgãos sensitivos periféricos para o SNC. ♦ A neuróglia é formada pelas células de sustentação, não neuronais, do sistema nervoso. ♦ No SNC, um conjunto de corpos celulares de neurônios é chamado de núcleo; no SNP, os agregados de corpos celulares de neurônios (ou mesmo os corpos celulares solitários) constituem um gânglio. ♦ No SNC, um feixe de fibras nervosas unindo os núcleos é denominado trato; no SNP, um feixe de fibras nervosas, o tecido conjuntivo que as mantém unidas e os vasos sanguíneos que as irrigam (vasa nervorum) constituem um nervo. ♦ Os nervos que saem do crânio são nervos cranianos; aqueles que saem da coluna vertebral são nervos espinais. ♦ Embora alguns nervos cranianos conduzam um único tipo de fibra, a maioria dos nervos conduz diversas fibras viscerais ou somáticas e sensitivas ou motoras.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
  MOORE, K.L. - ANATOMIA ORIENTADA PARA A CLÍNICA, 6ªED, 
GUANABARA KOOGAN, 2011.