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sexta-feira, 8 de abril de 2016

Posição anatômica

Todas as descrições anatômicas são expressas em relação a uma posição anatômica constante, garantindo que as descrições não sejam ambíguas (Figuras I.1 e I.2). Ao descrever pacientes (ou cadáveres), é preciso visualizar mentalmente essa posição, estejam eles em decúbito lateral, dorsal (deitados de costas) ou ventral (de barriga para baixo). A posição anatômica refere- se à posição do corpo como se a pessoa estivesse de pé, com:

•   A cabeça, o olhar e os dedos voltados anteriormente (para frente)
•   Os braços ao lado do corpo, com as palmas voltadas anteriormente e
•   Os membros inferiores próximos, com os pés paralelos.

Esta posição é adotada mundialmente para descrições anatômicas. Usando essa posição e a terminologia apropriada, você
pode  relacionar  com precisão  uma parte  do corpo  a qualquer  outra  parte.  No entanto,  é preciso  lembrar  também  que a


gravidade causa deslocamento inferior dos órgãos internos (vísceras) quando a pessoa está em posição ortostática. Como as pessoas costumam ser examinadas  em decúbito dorsal, muitas vezes é necessário descrever a posição dos órgãos afetados nessa posição, fazendo uma observação específica sobre essa exceção à posição anatômica.

PLANOS ANATÔMICOS


As descrições  anatômicas  baseiam-se  em quatro planos imaginários  (mediano,  sagital,  frontal e transverso)  que cruzam  o corpo na posição anatômica (Figura I.2):
   O plano mediano (plano sagital mediano), plano vertical que corta o corpo longitudinalmente, divide o corpo nas metades direita e esquerda. O plano define a linha mediana da cabeça, do pescoço e do tronco, onde cruza a superfície do corpo. Muitas vezes o termo linha mediana é erroneamente usado como sinônimo de plano mediano
   Os planos sagitais são planos verticais que atravessam o corpo paralelamente  ao plano mediano.  Embora seja muito usado, o termo parassagital é desnecessário, pois todo plano paralelo ao plano mediano, situado a cada lado dele, é, por definição,  sagital.  Entretanto,  um  plano  paralelo  ao  plano  mediano  e  próximo  a  ele  pode  ser  denominado  plano paramediano
   Os  planos  frontais  (coronais)  são  planos  verticais  que  atravessam  o  corpo  formando  ângulos  retos  com  o  plano mediano, dividindo o corpo em partes anterior e posterior
   Os planos transversos são planos horizontais que atravessam o corpo formando ângulos retos com os planos mediano e frontal,  dividindo  o  corpo  em  partes  superior  e  inferior.  Os  radiologistas  referem-se  aos  planos  transversos  como transaxiais, que costumam ser abreviados como planos axiais.
Figura I.2 Planos anatômicos. Ilustração dos principais planos do corpo.

Como  o número  de planos  sagitais,  frontais  e transversos  é ilimitado,  é necessário  empregar  um  ponto  de referência (geralmente  um ponto visível ou palpável ou um nível vertebral)  para identificar  a localização  ou o nível do plano,  como “plano transverso através do umbigo” (Figura I.2C). Os cortes da cabeça, pescoço e tronco nos planos frontal e transverso precisos são simétricos, atravessando as partes direita e esquerda de estruturas pares e permitindo alguma comparação.
O principal uso dos planos anatômicos é descrever cortes (Figura I.3):

   Os cortes longitudinais são feitos no sentido do comprimento ou paralelos ao eixo longitudinal do corpo ou de uma de suas partes, e o termo é aplicado sem levar em conta a posição do corpo. Embora os planos mediano, sagital e frontal sejam os cortes longitudinais padronizados (mais usados), é possível fazer cortes longitudinais em uma gama de 180°
   Os cortes transversos são “fatias” do corpo ou de suas partes perpendiculares ao eixo longitudinal do corpo ou de uma de suas partes. Como o eixo longitudinal do é horizontal, o corte transverso do está no plano frontal (Figura I.2C)
   Os cortes oblíquos são “fatias”  do corpo ou de qualquer uma de suas partes que não são feitas ao longo de um dos planos anatômicos mencionados. Na prática, muitas imagens radiológicas e cortes anatômicos não são feitos exatamente
nos planos sagital, frontal ou transverso; muitas vezes, são um pouco oblíquos.

Os anatomistas fazem cortes do corpo e de suas partes anatomicamente e os clínicos empregam tecnologias de imagem planar,como a tomografia computadorizada (TC), para descrever e exibir estruturas internas.

TERMOS DE RELAÇÃO E COMPARAÇÃO



Vários adjetivos apresentados como pares de opostos descrevem a relação entre as partes do corpo ou comparam a posição relativa de duas estruturas (Figura I.4). Alguns desses termos são específicos para comparações feitas na posição anatômica ou em relação aos planos anatômicos:
Superior refere-se a uma estrutura situada mais perto do rtice, o ponto mais alto do crânio. Cranial está relacionado com o crânio e é um termo útil para indicar direção, que significa em direção à cabeça ou ao crânio. Inferior refere-se a uma estrutura situada mais perto da planta do pé. Caudal é um termo útil indicador de direção, que significa em direção à região dos  pés  ou  da  cauda,  representada  no  homem  pelo  cóccix,  o  pequeno  osso  na  extremidade  inferior  (caudal)  da  coluna vertebral.
Posterior (dorsal) designa a superfície posterior do corpo ou mais perto do dorso. Anterior (ventral) designa a superfície frontal do corpo. Rostral é usado com frequência em lugar de anterior ao descrever partes do encéfalo; significa em direção ao rostro; entretanto, em seres humanos indica proximidade da parte anterior da cabeça (p. ex., o lobo frontal do encéfalo é rostral ao cerebelo).

Figura I.3 Cortes dos membros. Os cortes podem ser obtidos por seccionamento anatômico ou técnicas de imagem.

Medial é usado para indicar que uma estrutura está mais perto do plano mediano do corpo. Por exemplo, o dedo mínimo (5o  dedo da mão) é medial aos outros dedos.  Ao contrário,  lateral indica  que uma estrutura  está mais distante  do plano mediano. O polegar (1o dedo da mão) situa-se lateralmente aos outros dedos.
Dorso  geralmente  refere-se à face superior de qualquer parte do corpo que se saliente anteriormente,  como o dorso da língua, nariz, pênis ou pé. Também é usado para descrever a face posterior da mão, em oposição à palma. Como o termo dorso pode referir-se tanto às faces superiores quanto às faces posteriores em seres humanos,  é mais fácil compreender  o termo pensando em um animal quadrúpede plantígrado, que caminhe sobre as palmas das mãos e as plantas dos pés, como um urso. A planta é a face inferior ou base do pé, oposta ao dorso, grande parte da qual fica em contato com o solo quando se está descalço. A superfície das mãos, dos pés e dos dedos de ambos que corresponde ao dorso é a face dorsal, a superfície das mãos e dedos que corresponde à palma é a face palmar, e a superfície do e dos dedos que corresponde à planta é a face plantar.
Termos associados descrevem posições intermediárias: inferomedial significa mais perto dos pés e do plano mediano — por exemplo, as partes anteriores das costelas seguem em sentido inferomedial; superolateral significa mais perto da cabeça e mais distante do plano mediano.
Outros termos de relação e comparação independem da posição anatômica ou dos planos anatômicos e estão relacionados principalmente com a superfície ou o centro do corpo:
Os termos superficial, intermédio e profundo descrevem a posição de estruturas em relação à superfície do corpo ou a relação entre uma estrutura e outra subjacente ou sobrejacente.
Externo significa fora ou distante do centro de um órgão ou cavidade, enquanto interno significa dentro ou próximo do centro, independentemente da direção.
Proximal e distal são usados, respectivamente,  ao comparar posições mais próximas ou mais distantes da inserção de um membro ou da parte central de uma estrutura linear.


TERMOS DE LATERALIDADE


Estruturas pares que têm elementos direito e esquerdo (p. ex., os rins) são bilaterais, enquanto aquelas presentes apenas de um lado (p. ex., o baço) são unilaterais.  A designação específica  do elemento direito ou esquerdo das estruturas bilaterais pode ser fundamental, e é um bom hábito que deve ser adquirido desde o início do treinamento para se tornar um profissional de saúde. Ipsilateral refere-se a algo situado do mesmo lado do corpo que outra estrutura; por exemplo, o polegar direito e o lux direito  são ipsilaterais.  Contralateral  significa  que está no lado do corpo oposto  a outra estrutura;  a mão direita  é contralateral à mão esquerda.
TERMOS DE MOVIMENTO


 Vários termos descrevem os movimentos dos membros e de outras partes do corpo (Figura I.5). A maioria dos movimentos é definida em relação à posição anatômica,  e os movimentos ocorrem dentro de planos anatômicos específicos e ao redor de eixos alinhados com esses planos. Embora a maioria dos movimentos ocorra nas articulações em que encaixe de dois ou mais ossos ou cartilagens,  várias estruturas não esqueléticas  também se movimentam  (p. ex., língua, lábios, lpebras).  Os termos de movimento também podem ser avaliados em pares de movimentos opostos:
Os movimentos de flexão e extensão geralmente ocorrem em planos sagitais em torno de um eixo transverso (Figura I.5A e B). Flexão indica curvatura ou diminuição do ângulo entre os ossos ou partes do corpo. Na maioria das articulações (p. ex., cotovelo), a flexão refere-se ao movimento em direção anterior. Extensão  indica retificação ou aumento do ângulo entre os ossos ou as partes  do corpo.  A extensão  geralmente  ocorre  em direção  posterior.  A articulação  do joelho,  que apresenta rotação de 180° em relação às outras articulações, é excepcional, pois a flexão do joelho refere-se ao movimento posterior e a extensão, ao movimento anterior. A flexão dorsal (dorsiflexão) descreve a flexão na articulação do tornozelo, como ocorre ao subir uma ladeira ou levantar os dedos do chão (Figura I.5I). A flexão plantar curva o e os dedos em direção ao solo, como ao ficar na ponta dos pés. A extensão de um membro ou parte dele além do limite normal hiperextensão pode causar danos, como a lesão em “chicotada” (isto é, hiperextensão do pescoço durante uma colisão na traseira do automóvel).

Figura I.4 Termos de relação e comparação. Esses termos descrevem a posição de uma estrutura em relação à outra.













Figura I.5 Termos de movimento. Esses termos descrevem os movimentos dos membros e de outras partes do corpo; a maioria dos movimentos ocorre nas articulações, onde dois ou mais ossos ou cartilagens se encaixam.


Os movimentos  de abdução  e adução  geralmente  ocorrem  em um plano  frontal em torno de um eixo anteroposterior (Figura I.5E e G). Com exceção dos dedos, a abdução significa afastamento do plano mediano (p. ex., o afastamento lateral do membro superior em relação ao corpo) e a adução significa a aproximação desse mesmo plano. Na abdução dos dedos (das mãos ou dos pés), o termo significa afastá-los movimento de afastamento dos dedos da mão em relação ao 3o  dedo (médio), em posição neutra, ou movimento de afastamento dos dedos dos pés em relação ao 2o  dedo, em posição neutra. O
3o dedo da mão e o 2o dedo do fazem o movimento de abdução medial ou lateral em relação à posição neutra. A adução
dos dedos é o oposto a aproximação dos dedos, das mãos ou dos pés, em direção ao 3o dedo da mão ou ao 2o dedo do pé, em posição neutra. As flexões laterais direita e esquerda (curvatura lateral) são formas especiais de abdução apenas para o pescoço e o tronco (Figura I.5J). A face e a parte superior do tronco são direcionadas anteriormente enquanto a cabeça e/ou os ombros são inclinados  para o lado direito ou esquerdo,  causando desvio lateral da linha mediana do corpo.  Este é um movimento de associação que ocorre entre muitas vértebras adjacentes.

Como  se  pode  ver  observando  a  posição  da  unha  do  polegar  (lateralmente  em  vez  de  posteriormente  na  posição anatômica),  o polegar apresenta rotação de 90° em relação aos outros dedos (Figura I.5F). Portanto,  o polegar é fletido e estendido no plano frontal e abduzido e aduzido no plano sagital.
Circundução  é um movimento  circular que consiste em uma sequência de flexão,  abdução,  extensão e adução (ou na ordem inversa), de tal forma que a extremidade distal da parte se move em círculo (Figura I.5H). A circundução pode ocorrer em qualquer articulação na qual seja possível realizar todos os movimentos mencionados (p. ex., as articulações do ombro e do quadril).
A rotação é o giro ou a revolução de uma parte do corpo ao redor de seu eixo longitudinal, como ao virar a cabeça para o lado (Figura I.5G). A rotação medial (interna) aproxima a face anterior de um membro do plano mediano, ao passo que a rotação lateral (externa) afasta a face anterior do plano mediano.
A pronação e a supinação são os movimentos de rotação do antebraço e da mão que giram a extremidade distal do rádio (o osso longo lateral do antebraço)  medial e lateralmente  ao redor e através da face anterior  da ulna (o outro osso longo do antebraço),  enquanto  a extremidade  proximal do rádio gira sem sair do lugar (Figura I.5D).  A pronação  causa  a rotação medial do rádio, de modo que a palma da mão fique voltada posteriormente e o dorso, anteriormente.  Quando a articulação do cotovelo é fletida, a pronação move a mão de forma que a palma fica voltada inferiormente (p. ex., ao apoiar as palmas das mãos sobre uma mesa). A supinação  é o movimento inverso de rotação que gira o rádio lateralmente  e o descruza em relação à ulna, recolocando o antebraço em pronação na posição anatômica.  Quando a articulação  do cotovelo é fletida,  a supinação move a mão de forma que a palma fique voltada superiormente. (Dica para memorizar: Você consegue segurar um pouco de sopa na palma da mão se o antebraço estiver fletido em supinação, mas está pronto a derramá-la com a pronação do antebraço!)
A eversão  afasta  a planta  do  pé do  plano  mediano,  girando-a  lateralmente  (Figura  I.5I).  O   em  eversão  completa também está em flexão dorsal. A inversão move a planta do em direção ao plano mediano (girando a planta medialmente). O em inversão completa também está em flexão plantar. A pronação do refere-se, na verdade, a uma associação de eversão e abdução, que resulta no deslocamento inferior da margem medial do (um indivíduo com pés planos apresenta pronação dos pés), e a supinação do geralmente designa movimentos que resultam na elevação da margem medial do pé, uma associação de inversão e adução.
Oposição é o movimento no qual a polpa do polegar (1o  dedo) é aproximada da polpa de outro dedo (Figura I.5C). Esse
movimento é usado para pinçar, abotoar uma camisa e levantar uma xícara pela alça. Reposição  descreve o movimento de retorno do polegar da posição de oposição para sua posição anatômica.
Protrusão  é um movimento  anterior  (para a frente) como na protrusão da mandíbula,  dos lábios ou da língua (Figura I.5L).  Retrusão  é  um  movimento  posterior  (para  trás)  como  na  retrusão  da  mandíbula,  lábios  ou  língua.  Os  termos semelhantes protração e retração são mais usados para descrever os movimentos anterolateral e posteromedial da escápula na parede torácica, causando o movimento anterior e posterior do ombro (Figura I.5M).
A elevação desloca uma parte para cima, como na elevação dos ombros ao “dar de ombros”, da lpebra superior ao abrir o olho, ou da língua ao ser comprimida contra o palato (Figura I.5K). A depressão  desloca uma parte para baixo, como na depressão dos ombros em posição relaxada, da lpebra superior ao fechar o olho, ou do afastamento da língua do palato.

PONTOS CHAVE TERMINOLOGIA ANATÔMICA



Os termos anatômicos são descritivos e padronizados em um guia de referência internacional, a Terminologia A natômica (TA ). Esses termos, em português ou latim, são usados no mundo todo. A terminologia coloquial é usada por pessoas leigas e na comunicação com elas. Os epônimos são usados com frequência na prática cnica, mas não são recomendados, pois não oferecem contexto anatômico e não são padronizados. Os termos direcionais anatômicos tomam como base o corpo em posição anatômica. Quatro planos anatômicos dividem o corpo, e os cortes dividem os planos em partes visualmente úteis e descritivas. Outros termos anatômicos descrevem as relões entre partes do corpo, comparam as posições das estruturas e descrevem a lateralidade e o movimento.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
  MOORE, K.L. - ANATOMIA ORIENTADA PARA A CLÍNICA, 6ªED, 
GUANABARA KOOGAN, 2011. 


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